Na estrada

O tema hoje é auto-reflexão inspirada pelo post do meu primo aqui. Se quiser acompanhar a reflexão, clique aqui embaixo e sobe o som!

Durante muito tempo me perguntei: por que eu sou assim? Existem pessoas que conseguem simplesmente “conformar-se” com as vidas que têm. Existem pessoas que conseguem se enfiar em um trabalho que não é ruim, mas não é o que elas sonhavam, e levar a vida inteira adiante. Existem ainda pessoas que veem coisas que não estão certas, não concordam, mas ficam na delas; não dão opinião nem se manifestam sobre o assunto. Existem também pessoas que aceitam a vida de peito aberto, pois está sempre tudo mais ou menos e não há motivos para reclamar. Eu simplesmente não sou assim.

Me lembro das inúmeras vezes em que perdi a oportunidade de ficar calado por achar que algo estava errado e me manifestar, mesmo quando o errado era eu. Lembro ainda de como deixei para trás situações estáveis pela busca constante do desafio. Contudo, o que mais me lembro é como não posso simplesmente concordar e assentir com alguma coisa. Sim, sou chato, contestador e, muitas vezes pedante.

Nos últimos 12-15 meses aconteceu algo de engraçado: alguns amigos de muito tempo que estavam sumidos e até mesmo antigos professores reapareceram em minha vida e passamos a ter um contato mais próximo novamente. Conversar com as pessoas e, principalmente, estar mais próximo delas, me fez entender um pouco mais sobre mim mesmo e minhas atitudes.

Quando tinha por volta dos 15 anos tive a oportunidade de fazer parte do movimento estudantil, ainda no segundo grau. Naquela época tinha uma crença maior na democracia e no poder de mobilização popular, chegando até mesmo a me filiar no PDT e participar do movimento para jovens do partido na época. Se não me engano, chamava-se Juventude Socialista. Tenho muitas lembranças da época, mais pessoais do que teóricas, mas o que me marcou profundamente foram duas coisas: o manifesto comunista que comprei e uma frase, supostamente de Che Guevara, em uma camiseta.

O manifesto comunista foi importante porque o comprei de alguns estudantes cubanos, que conseguiram imprimi-lo em uma só folha em formato de papiro. Durante muito tempo o tive quase que como um mantra diário, relendo algumas das frases mais importantes:

De todas as classes que, na hora atual, se opõem à burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária.

(…)

As classes médias – o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês – todas combatem a burguesia porque ela é uma ameaça para a sua existência como classes médias. Não são pois, revolucionárias mas conservadoras. Mais ainda, são reacionárias, já que pretendem fazer andar para trás a roda da história. São revolucionárias unicamente quando têm diante de si a perspectiva da sua passagem iminente ao proletariado: então, elas defendem os seus interesses futuros e não os seus interesses atuais; abandonam o seu próprio ponto de vista para adotar o do proletariado.

Aprendi com o manifesto comunista que nenhuma mudança vem da situação, ou como diz o famoso Capitão Nascimento em tempos modernos:

O sistema só trabalha pra manter o próprio sistema

Desafiar o sistema passou a ser meu principal objetivo. Sempre.

Já a frase de Che me definiu como cidadão, e não consigo me descolar dela onde quer que vá:

A maior capacidade de um revolucionário é ser capaz de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.

Não importa se não tem diretamente a ver comigo: se for injustiça, ou me parecer injusto, estarei lá.

A grande reflexão é que sempre imaginei que só eu era assim, mas ao reencontrar meus amigos percebo que sou um pouco de cada um. Já escrevi aqui como a escola pública, gratuita e de qualidade foi importante na minha formação como cidadão. Pois foi lá que encontrei grande parte deles e tenho muito orgulho de tudo o que passamos juntos. Foi com eles que aprendi a discutir e não brigar, a construir coletivamente, a me importar com a sociedade, a conhecer o meio ambiente, a amar o cerrado e, principalmente, a importância do amor. Não falo do amor enquanto sentimento de homem e mulher, mas sim do amor ao próximo. Foi a primeira vez que me senti parte de algo maior do que eu.

Ao crescer encontrei na Seicho-No-Ie o que me faltava enquanto homem. Deixei de ser um jovem garoto cheio de ideais e me tornei um homem que acredita no potencial e luta para realizar seus sonhos. Encontrei um ciclo de amigos que eram pedaços meus que estavam faltando e, claro, encontrei a minha outra metade. Fui moldado por eles (e por ela), além do ensinamento libertador que me ensinou que eu podia ser mais.

Se a família é a base, a sustentação é o que aprendi com os familiares. Do meu primo, guardo uma frase simples, dita no momento em que velávamos o corpo do meu avô, mas que me marcou profundamente.

Se não sabe brincar, não brinca.

O mais sábio é aquele que conhece a si mesmo, e a frase me trouxe um profundo sentido de auto-conhecimento. Não me arrisquei mais em campos onde não tinha capacidade de crescer, e foquei os esforços no que era realmente bom, mesmo sabendo reconhecer meus principais defeitos.

No caminho da vida, mais importante do que caminhar grandes distâncias é saber dar um passo de cada vez. É por isso que eu estou e sempre estarei na estrada, aprendendo e me fundindo a cada pedaço de sabedoria que encontrar no caminho.

Para finalizar, deixo outra música que representa o futuro:

Te vejo por aí, na estrada.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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  1. 19th agosto 2012 | Sanir, o primo says:
    É Dudu, você definitivamente aprendeu a brincar. No jogo da vida. Suas experiências te conduziram a ser um Homem com sólida formação, com caráter, trabalhador, coerente e consciente de seu papel nos diferentes personagens que assumes no cenário da vida vivida, ou vida cotidiana, como preferir. Como já declarei, é um privilégio caminhar ao seu lado, sentimento certamente compartilhado por todos aqueles a quem você se refere neste post. A propósito, se me permite, compartilho mais uma experiência contigo. Nesta semana instalei um DVD veicular em meu carro, daqueles de 3" que ficam no console, no intuito de dar um update no meu velho Palio (10 anos de uso, coisas da vida proletária...) e readquirir o prazer de dirigi-lo escutando, enquanto enfrento aquele engarrafamento infernal cotidiano, meus DVDs de música. O primeiro escolhido foi um do Rappa, uma de minhas bandas prediletas, onde existe um extra com um set semi-acústico realizado em 2004 no estúdio de gravação do CD O Silêncio que Precede o Esporro. Adoro este set, é minha parte predileta deste DVD. Enfim, ao deixar meus filhos na escola, o Davizinho, meu primogênito, se interessou pela canção Pescador de Ilusões, pedindo que eu repetisse a música, e novamente em seguida. Na volta, ele me disse que havia gostado muito desta canção. No dia seguinte, ele me pediu novamente que colocasse aquele DVD, e cantou a música enquanto tocava. Não poderia deixar de me emocionar, não conseguindo segurar a lágrima que insistiu escoar pelo meu rosto, pois há década atrás (ou seja, bem antes de ele nascer) elegi esta canção como o lema da minha vida. Ela diz Se meus joelhos não doessem mais Diante de um bom motivo que me traga fé Se por alguns segundos eu observar a isca e o anzol Ainda assim estarei pronto pra comemorar Se eu me tornar menos faminto que curioso O mar escuro trará o medo lado a lado Com os corais mais coloridos. Valeu a pena. Sou pescador de ilusões. Se eu ousar catar na superfície de qualquer manhã As palavras de um livro sem final Valeu a pena. Sou pescador de ilusões. Minha leitura desta viajem: a vida é um livro sem final, e por mais que meus joelhos doam de tanto pedir dias melhores, todas as novas experiências, por mais dolorosas e temerárias que sejam, sempre valem a pena no final. Durante a jornada, ou a estrada, encontramos corais coloridos, lindas palavras soltas em qualquer manhã que aliviam nosso fardo, e principalmente, devemos agradecer pela oportunidade de labutar. Ganhando ou perdendo. E meu filho naquele momento cantando uma canção que eu adoro há quase duas décadas foi um lindíssimo coral colorido. Na estrada sempre encontramos lindos corais e belas palavras deste livro sem final que é a nossa vida. Muito doida. Você mesmo relatou: enquanto velávamos nosso avô, refletíamos sobre a vida. Sobre a estrada. Acredito que quando fazemos reflexões como a que você fez Deus está nos dando mais uma oportunidade de seguirmos adiante com fé e confiança. Na verdade, acredito que ele está nos afagando e acenando a cabeça positivamente, como quem quer dizer "é isso, meu filho, parabéns e siga em frente que eu estou aqui contigo". No coral colorido da canção entoada pelo Davi foi isso que senti. Você também deve ter se sentido assim enquanto concebia esta "homenagem" através de palavras a todas as pessoas inseridas em suas experiências de vida. E eu me senti um privilegiado de ocupar um bom espaço de suas reflexões com experiências que compartilhamos e também sugestões e reflexões de minha autoria. Além disto devo agradecer mais uma vez o aprendizado que tive contigo. Temos mais em comum do que você pensa. Somos partidários de um mesmo modelo de sociedade, pais, maridos, trabalhadores e frutos de experiências familiares similares. Isso nos alça a condição de irmãos, já pronunciei isto. Mesmo "proximamente distantes". Mas não por muito mais tempo. Muito obrigado novamente. Grande abraço. Samir A. Santos
  2. 20th agosto 2012 | Eduardo Santos says:
    Puxa primo, mais uma vez me emocionou. Eu não sei se você sabe, mas tenho um amigo de muitos anos, que foi inclusive meu padrinho de casamento junto contigo, que foi brutalmente assassinado na porta de casa em frente à sua esposa em um assalto. Em vários momentos importantes da vida sinto sua presença, como no dia de hoje. Essa era a música que ele mais gostava, e sempre quando nos reunimos em sua memória colocamos para tocar, lembrando-nos que apesar da dor, a vida sempre continua. Mais um momento da vida em que sinto a presença de Deus se manifestando. Obrigado por estar na área. Abração

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