Escola de Bandidos?

O assunto de hoje é triste, vergonhoso, enfim, não consigo encontrar adjetivos para defini-lo. Todos conhecem as restrições que tenho quanto ao modelo de funcionalismo público, principalmente por viver em Brasília e ser permeado por ele todos os dias. Tivemos uma discussão na linha quando o Digão publicou essa nota no facebook, relatando mais um dos absurdos do serviço público. Trago um trechinho aqui pra vocês terem uma ideia do que se trata:

Hoje de manhã necessitei do TRE. E descobri que o mesmo só funciona nesta semana de 14 as 17h e em horário “normal” de 12h as 18h. Olha, não tenho nada contra funcionários públicos, mas tenho contra a orgãos, tribunais e etc que deveriam atender bem AO PÚBLICO e estão se lixando para isso. O SERVIÇO É PÚBLICO!

Concordo com tudo o que ele disse, e podemos encontrar exemplos ainda mais graves quando estamos falando de professores. Já falei sobre a classe professor aqui (na qual me incluo) que é mal remunerada, subvalorizada, maltratada, sujeita a péssimas condições de trabalho, enfim, tudo o que já sabemos sobre a nossa sociedade. Contudo, ao tratar do ensino em escolas públicas, muitas vezes os professores se esquecem da essência: são funcionários públicos.

Acredito que existem alternativas para tornar o serviço público mais eficiente, e em uma sociedade capitalista como a nossa o mais correto é o óbvio: dar mais dinheiro aos melhores professores. Aí está o ponto que os professores consideram polêmico: o que é ser um melhor professor? Professores de maneira geral não lidam bem com quaisquer avaliações sobre o seu trabalho.

Vão aparecer dezenas, talvez centenas de professores aqui criticando as medidas do Governo do Estado de São Paulo que incluem remuneração variável para os professores com base no desempenho dos alunos. Argumentarão eles que a educação é um processo, que não são os únicos responsáveis por isso (como bem disse a professora Amanda), que os critérios de avaliação não são claros, etc. E todos eles estarão certos.

Contudo, ao apresentar todos esses argumentos, os meus colegas se esquecerão do óbvio: ao fazer um concurso público tornaram-se agentes do povo, ainda que estejam sujeitos ao Estado, e aceitaram de livre e espontânea vontade a missão de educar. Sim, não havia no contrato de trabalho processa de um país melhor: apenas a profissão de educador no Brasil, com seus defeitos e qualidades. Se candidataram a ela por um salário combinado e aceitaram.

O que o Governo está fazendo é encontrar uma medida que incentive os professores a se preocupar com o fato do aluno estar aprendendo. Já adianto que sou totalmente a favor da remuneração variável em todas as áreas do serviço público. Se duas pessoas realizam o mesmo trabalho e ganham o mesmo dinheiro, a nossa sociedade diz que não há razão para uma trabalhar mais que a outra, e não deixa dúvidas quanto ao dinheiro ser o melhor incentivo. A maioria esmagadora dos “concurseiros” que conheço estão atrás apenas do concurso que paga mais e trabalha menos, e não estão nem um pouco interessados em servir ao povo. É triste, mas é a realidade.

Aí vem o ponto indignador, chocante, vergonhoso, enfim, não encontro adjetivos para definir o que sinto ao ler essa notícia aqui. Conheço dezenas de pessoas que são funcionários públicos, muitos professores, que usam do expediente cínico do atestado médico para não ir trabalhar, muitas vezes em conluio com a direção da escola. Estava ao lado de uma amiga professora quando ela informou ao diretor que não iria dar aula e ele falou que conseguiria um atestado pra ela. Sei que isso não ocorre só na educação, e muito menos no serviço público: é algo que o brasileiro faz com uma naturalidade quase espantosa. Quem mora em São Paulo sabe de um determinado local na Praça da Sé que vende atestado médico fácil, por menos de R$ 100,00.

O que essa “professora” fez é, todavia, muito mais grave do que isso. Dando uma de “esperta” fez a prova de avaliação no lugar dos alunos e turbinou o próprio salário em 290%. Sabe o que me deixa mais triste? Alguns dos que lerão esse post dirão como a professora foi esperta e como o sistema é fácil de fraudar, atribuindo a culpa à falta de fiscalização. Aí eu pergunto: uma professora que é capaz de tomar tal atitude em benefício próprio, o que não estará ensinando a esses alunos? Se dar bem a qualquer custo? Como enganar os outros? Como “se dar bem” facilmente?

Um agente de educação PÚBLICO , SERVIDOR DO POVO, não pode nunca, sob nenhuma hipótese (ou pelo menos não poderia) tomar uma atitude como essas. Poucas vezes escrevi algo com tamanha indignação, mas não por causa da professora. O que serão dos meus filhos ao crescer num país onde os agentes públicos da educação aplicam tais ensinamentos? Pior: como serão os filhos dessa mulher que se diz educadora?

Sinceramente, não consigo mais escrever. É triste demais…

0saves


Se você gostou desse post, deixe um comentário ou inscreva-se no feed RSS para ter todas os posts enviados para o seu agregador preferido.

Author Description

Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

There are 1 comments. Add yours

  1. 18th junho 2013 | Cida Garcia says:
    Sem palavras.... Compartilho a indignacao :(

Deixe uma resposta

Twitter

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 504 outros assinantes

Alguns direitos reservados

Licença Creative Commons
Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.