Eleições 2014 e mudança

Eleições 2014 e mudança

Dessa vez o post sobre as eleições vai sair um pouco antes do que o previsto por uma série de razões, que ficarão mais claras ao longo do texto. Gostaria de iniciar convidando todos a voltar para o mês de Junho de 2013, aquele que ainda será (espero eu) discutido por muitos anos na história de nosso país. Escrevi bastante e fiz até hangout sobre isso, então vou deixar alguns links aqui se quiser ler o que eu disse na época:

A minha relação com o tema protestos escalou, pois motivou grande parte da minha pesquisa de Mestrado. Quando todos fomos para a rua no ano passado, o que estávamos buscando? Essa pergunta ainda permanece sem resposta para a maior parte dos autores, mas podemos chegar à interessantes conclusões invertendo a pergunta: o que você queria em Junho/2013?

Corte brusco para as eleições esse ano. Antes de mais nada, minha lista de votos para ser direto e você poder continuar lendo o texto sabendo as minhas preferências:

  • Deputado Distrital: Chico Leite
  • Deputado Federal: Érica Kokay
  • Senador: Reguffe
  • Governador: Rodrigo Rollemberg
  • Presidente: Dilma

Mudança

Vamos pensar na palavra que motivou provavelmente a maior parte dos votos em Aécio Neves: mudança. Para os que têm a capacidade de lembrar, foi praticamente o mesmo termo capaz de elger o Lula da primeira vez. Havia um sentimento no povo de que era preciso mudar, resultando na eleição do Presidente Lula como um verdadeiro popstar. Ele foi praticamente aclamado pelo país, e os seguranças tinham dificuldade em conter todas as pessoas que se emocionavam ao chegar perto dele. Foi uma verdadeira catarse.

Se pensamos que algo precisa ser mudado, significa que existe algo que não gostamos acontecendo no país. Qual seria então essa mudança que o Brasil precisa e que a maioria das pessoas busca em um novo governante? A mudança que busco já enunciei por aqui, e foi um dos temas mais abordados nos protestos do ano passado: “copa do mundo, eu abro mão; quero dinheiro pra saúde e educação”. Quem não lembra?

Infelizmente, vamos chegar a mais uma eleição em que o candidato vencedor não tem na educação sua principal bandeira. Pelo contrário, preferiu dar uma “saída pela tangente” e se apegar à bandeira da reforma política como “bala de prata” nessas eleições. Seria isso uma mudança das muitas que eram necessárias para o país?

Vou chegar agora no termo mais espinhoso para os que defendiam a alternância: corrupção. Alguns acreditam que a mudança para um candidato como o Aécio seria o fim da corrupção endêmica no PT que afeta órgãos como a Petrobras, os Correios, enfim, quase tudo o que envolve o governo. Não vou entrar na defesa dessa ou daquela corrente, mas vou recomendar esse texto aqui, aproveitando para dar um aperitivo: “a corrupção está enraizada na cadeia genética canarinha numa sequência longa de adenina, guanina, timina e citosina”. Assim, independente do candidato que ganhasse a eleição, a corrupção continuaria acontecendo da mesma maneira. Por quê? Porque somos um povo corrupto. Ponto.

A mudança verdadeira, estrutural e profunda pode ser representada por um único documento: o Plano Nacional de Educação. Independente de quem ganhasse a eleição, a prioridade seria a mesma e o famoso PNE teria que ser elaborado. Aí eu pergunto: você se lembra da professora Amanda? Caso não lembre, dê uma passadinha aqui. Para não permitir que seus 5 minutos de fama fossem embora como areias ao vento, ela elaborou uma única proposta para defender: 10% do PIB em educação. Após tudo o que aconteceu no ano passado, o Governo Federal lançou o PNE com uma mudança surpreendente: aumento de investimentos em educação para 7% do PIB, chegando aos 10% em 10 anos.

Para ser claro: a proposta é dobrar os investimentos em educação nos próximos 10 anos. Isso é porque o governo do PT se interessa por educação? NÃO, NÃO É! Tudo isso aconteceu porque você foi às ruas dizer que educação era importante. E isso mudou tudo. Independente de partido ou governo.

Choque de realidade

Me sinto agora obrigado a te contar um segredo: nem tudo é tão ruim quanto querem te fazer acreditar nem a melhora é tão grande quanto você gostaria de ver. Num país do tamanho do Brasil qualquer mudança estrutural vem ao longo do tempo, mas a boa notícia é que ela não vai deixar de acontecer porque a Dilma ganhou. Nem tampouco deveria deixar de acontecer se o Aécio tivesse ganho. Precisamos chegar ao ponto em que o projeto de país é maior que o projeto de um ou outro partido, e pela primeira vez em décadas conseguimos ver isso no PNE.

Escrevo esse texto da cidade de Porto, Portugal. Ao caminhar pelas ruas da cidade senti uma mistura diferente de emoções, que me remete ao passado, mostra o presente e dá uma perspectiva de futuro. Vou contar um segredo pra vocês: o Brasil não é tão ruim quanto parece. Nem está tão mal quanto nos fazem querer acreditar a galera do Aécio, nem tão bem quanto pinta a galera da Dilma. A realidade é que a verdadeira mudança política não depende do partido A, B ou C: depende da nossa capacidade de cobrar que os governantes façam o que acreditamos ser melhor para o país.

Deixando os radicais ainda mais tristes, um outro segredo: esses não são nem de longe os piores candidatos da história do Brasil. Em 1989, Sílvio Santos era candidato. Sim, aquele mesmo do aviãzinho. Você consegue imaginar hoje alguém que é candidato à presidência distribuindo aviõezinhos de dinheiro no domingo à noite, em rede aberta de televisão? Essas mudanças aconteceram porque o Brasil como um todo evoluiu. A sociedade brasileira evoluiu e (pasmem) o país está melhor e mais consciente. Se você não acredita em mim, dê uma lida em alguém que sabe mais disso do que eu.

A eleição começa agora

Por mais que vá te doer o que eu vou falar, não elegemos uma super heroína que vai tirar sua caneta mágica do bolso e resolver todos os problemas do Brasil. A única maneira de crescermos todos é com muito, mas MUITO trabalho mesmo, e o principal responsável por isso é você que está sentado lendo esse texto. É preciso cobrar, fiscalizar, se manifestar, enfim, se fazer ouvir. Só assim garantiremos que a vitória histórica do PNE não seja atirada para debaixo do tapete. Se você chegou até aqui, já representa a pequena parcela da população que tem vontade de fazer isso.

Que tal então pararmos de somente reclamar e arregaçar as mangas para juntos construirmos um país melhor? Que tal não ser como o tio Arthur, e tentar ser o maior guardião de sua própria ética evitando ou fugindo da corrupção sempre que ela aparecer à sua frente? Se você é da área de Computação e Tecnologia, já posso te dar uma dica para começar https://groups.google.com/forum/#!forum/thackday. Subverter o governo através do controle social é uma boa ideia pra começar, não acha?

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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  1. Pingback: Calangos Tecnologia - Eleições 2014 e mudança 5 de fevereiro de 2015

    […] By Eduardo Santos […]

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