O limite de consumo na banda larga também é culpa sua

O limite de consumo na banda larga também é culpa sua

Como eu já havia dito no longínquo ano de 2010, havia (à época) uma perigosa tendência de loteamento da Internet entre os principais players do mercado nos Estados Unidos. A batalha Verizon versus Google, tratando do consumo de banda em acesso aos vídeos do Youtube, terminava com um “acordão” onde trocavam alguns centavos entre elas para que o serviço não fosse interrompido.

Pois bem, eis que no ano de 2010 surge o presidente da Anatel dizendo que é preciso limitar o consumo de Internet por causa do consumo de banda dos jogos online, entre mais alguns absurdos proferidos por ele. Essa declaração tem apenas um objetivo: FUD. Hoje em dia qualquer coisa que culpe os nossos joguinhos pelo problema passa muito fácil na sociedade. Afinal, basta limitar os joguinhos do seu filho, não é mesmo?

Antes de tudo, um esclarecimento: a Anatel não é um órgão do Poder Executivo, o que significa que ela não é subordinada ao Governo Federal. Não, não adianta culpar o PT por essa, pois ele tem muito menos responsabilidade pelo destino da Anatel que você, cidadão. Explico: veja a composição do conselho consultivo da Anatel:

  • dois representantes do Poder Executivo;
  • dois representantes do Senado Federal;
  • dois representantes da Câmara dos Deputados;
  • dois representantes de entidades representativas dos usuários;
  • dois representantes de entidades representativas da sociedade e;
  • dois representantes de entidades de classe das prestadoras de serviços de telecomunicações.

Fonte: http://www.anatel.gov.br/institucional/index.php/noticias/noticia-institucional-01/1045-entidades-sao-convocadas-a-indicar-nomes-para-o-conselho-consultivo-2

No momento político conturbado que vive o nosso país, muita gente tem o hábito de dizer que “odeia política” ou “odeia partidos políticos”. O que você precisa entender é que, numa democracia representativa como a nossa, as cartas são distribuídas pela sociedade civil organizada. Isso significa que para ter voz, você precisa juntar um grupo de amigos que tenha as mesmas opiniões que você e se fazer ouvir. Até mesmo para mandar numa agência reguladora, que é a Anatel.

Muita gente já rastreou que o atual presidente era da Abrafix, a associação das empresas de telefonia, prestadoras de um serviço público. Como então elas conseguiram emplacar o presidente da Anatel? Ora, é muito simples: elas se organizaram. Veja que existe na composição da Anatel duas cadeiras para entidades representativas da sociedade, duas do Senado e duas da Câmara. Por um acaso você sabe quem são? Você concorda ou discorda do nome? Ah,você não sabe? Então desculpa, você é só mais um que fica xingando no Twitter. Sua opinião não vale de nada. Para fazer valer, você precisa estar envolvido com a sociedade civil organizada.

Voltando ao tema do post, que não é tanto política, já entendemos qual é a estratégia das operadoras, doravante denominadas Teles: vão atacar os joguinhos digitais. Obviamente isso é uma mentira. Se tiver dúvidas, veja essa análise do Tecmundo. Sim, do Tecmundo. Não estou louco. Eles fizeram um guia for dummies capaz de explicar pra você como é o consumo de banda em jogos digitais. Em resumo é o seguinte: jogos praticamente não consomem banda de Internet. Para ter uma boa qualidade você precisa de latência, ou seja, uma Internet confiável, coisa que simplesmente não existe no Brasil. Se você não entende, busque o que já expliquei por aqui sobre o tamanho da Internet brasileira.

Vamos entender então os principais motivos, que já tinha citado por aqui em 2010. Quais são os principais players de Internet no Brasil? Não precisa nem buscar dados porque são poucos: Telefônica, Net e GVT (agora Telefônica também). Pergunte a você mesmo: a quem pertence a Net? Sim, a Net pertence à Rede Globo, que não coincidentemente vem enfrentando uma perda significativa de assinantes nos seus serviços de TV por assinatura para a Netflix. Qual a saída então? Partir para a agressão.

Essa discussão fica ainda mais complexa quando a questão chega no Youtube, como melhor explica esse artigo do Youpix. Existe um contingente gigante de pessoas que não assiste televisão: passa o dia inteiro no Youtube. E isso afeta diretamente as empresas de comunicação, que não conseguem fazer seu conteúdo chegar a toda uma geração. Qual a forma mais simples de lidar com isso? Restringir o acesso ao conteúdo transmitido através da Internet controlando a agência reguladora que trata do tema.

Para finalizar, mais um mito que tem se espalhado na prática de FUD daqueles que tentam desmistificar o Marco Civil da Internet, talvez uma das melhores legislação do mundo sobre o tema. Tem muita gente divulgando de maneira mentirosa e proposital que o Marco Civil deixou “brechas” para que isso acontecesse. Não vou me alongar muito sobre o tema pois você pode pesquisar aqui no blog o que já escrevi sobre o Marco Civil, mas um de seus princípios inexoráveis é a Neutralidade da Rede, ou seja, todo o mundo pode acessar o que quiser, sem distinção de fonte. Colocar a culpa desse problema nessa lei é tentar criar uma antipatia sua em relação a ela e começar a dispersão de foco que tem como objetivo final te convencer que a prática de zero rating é uma boa coisa (aqui em português). Em resumo: não acredite quando a operadora te disser que o Whatsapp grátis é bom pra você. Simplesmente não é, e a limitação da banda larga tem a mesma origem que o oferecimento de alguns serviços gratuitos.

Infelizmente a única forma de mudar isso é através do engajamento político. Você precisa ligar para os seus deputados e senadores informando que deseja melhores representantes na Anatel. Você também precisa fazer parte das associações da sociedade civil que indicam os membros da Anatel. Para se ter uma ideia, a representante atual da sociedade civil é membro do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro. Isso te representa?

Por mais que seja legal reclamar do Governo Federal, ele só tem duas cadeiras no conselho e manda muito pouco. Se você ficar aí sentado reclamando muito no Twitter não vai mudar nada.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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