Welcome to Magic Kingdom

Sete horas da manhã. Depois de uma noite inteira viajando, alfândega e confusão com malas, chegamos por volta das 16h00 no hotel. Apesar da ansiedade decidimos que seria melhor arrumar as malas, comer alguma coisa e descansar um pouco para tudo o que aconteceria no dia seguinte. Estando onde estávamos não conseguimos ficar o tempo inteiro no quarto e já tínhamos dado uma volta pelo local, mas não por aqui. Não dessa forma.

Passei os últimos anos da minha vida imaginando com seria esse momento. Lembrei do dia de folga em que passeei sozinho pelas diversas lojas de todo o mundo, e quando chegou o final da tarde estava passando em frente ao restaurante francês que ficava em frente a um lago. O sol do final da tarde refletia sobre a água e indicava uma noite fria, exatamente como eu imaginava. Calcei as luvas que estavam no bolso e olhei para o teto do restaurante que refletia os raios do pôr do sol. Era um espetáculo lindo, sem dúvida. Quando percebi, as lágrimas já estavam rolando. Era mais um momento mágico, de harmonia perfeita entre local e sentimento como já havia acontecido muitas vezes na mesma viagem. Um misto de emoções tomou de assalto meu coração: afinal, por que não estava feliz?

Retomei o caminho entre as lojas limpando as lágrimas e tentando pensar em algo diferente. Talvez uma mudança de ares me fizesse pensar em outra coisa. Entrei no Japão e um restaurante de comidas típicas mais uma vez acelerou meu coração. Achei que era melhor seguir caminhando até que  me distraí numa loja que vendia revistas em quadrinhos japonesas – os populares mangás. Logo encontrei uma meia dúzia que certamente seriam bastante apreciados pela minha irmã. Segui por uma loja de perfumes e me entreti na escolha dos melhores aromas, deixando a mente divagar um pouco. O vazio estava ali, e ficava mais latente quando me aproximava da felicidade, mas um pouco de distração era o que eu precisava para seguir.

De volta à realidade, percebi que meus filhos estavam prontos. Seu sorriso era algo difícil de explicar, e pareciam estar todos sabendo da importância dos próximos passos. Não que fosse algo grande demais; afinal estávamos a caminho do parque e tornaríamos a fazer o mesmo caminho várias vezes pelos próximos dias. Mas havia algo no ar que não era possível de explicar.

Tomei meus filhos pelo braço, dei um beijo em minha esposa, e indiquei o caminho que deveríamos seguir. Sim, poderíamos ter tomado o trem, mas não seria a mesma coisa. Pelo menos hoje seguiríamos um caminho menos prático, pois tínhamos que passar por lá. Tinha que ser do mesmo jeito. Coloquei as crianças no carro e dirigi para o estacionamento. Não foi difícil me perder em sonhos outra vez.

O Natal prometia ser bastante frio e todo o parque estava movimentado. Deviam ser quase oito horas da noite e eu ainda estava trabalhando. Não me lembrava direito o porquê, mas também não estava reclamando por ter que trabalhar. A televisão do refeitório mostrava mais um dos muitos jogos de futebol americano que acontecem nessa época do ano. Enquanto prestava atenção nos jogos e conversava com o pessoal ao redor da minha mesa sobre a nossa ceia de Natal, minha mente novamente voltou para casa. Em conversas como essa onde todos estavam animados eu tentava não estragar o clima e interagir ao máximo, mas nunca conseguia pensar no Natal sem voltar para casa. Sim, teríamos uma ceia e estávamos em um lugar mágico. Quase sempre podíamos perceber como estávamos vivendo um sonho e como seria bom se durasse para sempre, mas para sempre? Mais uma vez, algo estava errado.

Abri a porta do carro e peguei um dos carros que fazem o transporte até a área de venda de ingressos. Ao descer do carro, parei por alguns longos minutos e me lembrei dos milhares de vezes que passei por ali: TTC ou Ticket and Transportation Center. Numa manhã como aquelas, estaria trocando uma meia dúzia de palavras com os companheiros e esperando os próximos guests aparecem em minha janela. Mas não dessa vez. Agora eu estava acompanhado.

Abracei meus filhos, ajoelhei e falei para eles: “filhos, o papai trabalhou aqui sabiam”? Eles pareciam não entender muito bem o que se passava:

– Mas papai, você não trabalha naquele prédio grande?

– Sim filho, mas isso foi bem antes de você nascer.

Logo eles viram uma senhora com as luvas de Mickey e saíram correndo na direção dela. Minha esposa me olhava com um olhar ao mesmo tempo curioso e fraternal. Olhei em seus olhos, vi seu sorriso e disse:

– Agora entendi o que faltava.

Ela parecia não entender muito bem, e apenas me deu a mão e sorriu:

– O que faltava meu amor?

– Você. Agora não falta mais.

Demos um abraço apertado e seguimos para o parque, correndo atrás das crianças que iam à frente. Em cima da grade de entrada uma placa dizia: “Welcome to Magic Kingdom”.

“Agora sim”, pensei. Muitos anos após o dia vinte e um de novembro do ano de dois mil e seis, agora eu estou aqui, de corpo e alma.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

There are 5 comments. Add yours

  1. 22nd November 2011 | Dani Polis says:
    Poxa, Du, super me emocionei, de verdade. Quando eu pisei lá de novo, depois de quase 6 anos e com alguém que eu amo, parece que tudo fez mais sentido. É como se você pudesse mostrar parte da sua historia pra quem não participou com você de uma das melhores fases da sua vida. Eu fico imaginando como vai ser o dia em que eu voltar lá com os meus filhos. As coisas marcam tanto, que o primeiro lugar que fui quando fui pra lá foi o Downtown Disney. Chegando lá, sentei nas cadeirinhas em volta do lago, aonde tava tendo um showzinho e chorei muito. De emoção, de saudade, não sei. Foi como voltar pra casa. A Disney vai ficar pra sempre marcada na minha memória e no meu coração. Muitos wishes meus viraram realidade lá... Vou add o seu blog à minha blog roll =) Bjão!
  2. 23rd November 2011 | Eduardo Santos says:
    Oi Dani, É exatamente isso. É o que eu imagino que vai acontecer comigo. :) Obrigado pela visita e pela lembrança.
  3. 24th November 2011 | Daniela Abreu says:
    Que lindo meu amor.... Em breve isso tudo vai acontecer... e vai ser ainda mais mágico! Te amo! Ter vc ao meu lado dá todo sentido a minha vida! beijos, Amor
  4. 25th November 2011 | Eduardo Santos says:
    Obrigado meu amor. Você é o sentido da minha vida também.
  5. 18th January 2018 | Natalia says:
    Que relato lindo Edu. Me emocionei de verdade.. caiu até um cisco aqui no meu olho. Experiência maravilhosa que nós vivemos sendo parte de tudo aquilo, não tem explicação. E ir pra lá com quem amamos realmente tem um gostinho especial.

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