O Nascimento de uma Indústria

O assunto hoje é um pouco diferente do que estou acostumado a escrever no blog, mas motivado pelo que aconteceu na semana não posso deixar de comentá-lo: a possível adição dos jogos eletrônicos nas políticas de incentivo da Lei da Informática. Curiosamente no mesmo dia em que li essa notícia chegou meu computador recém-comprado na FNAC pelo inacreditável valor de R$ 1.299,00.

Os mais novos devem estar e perguntando o que tem de tão inacreditável na compra. Afinal, não está tão barato assim e uma rápida busca na Internet pode revelar outros com preços talvez melhores do que os pagos por mim. A grande questão, contudo, não é o preço que eu paguei, e sim a possibilidade de haver produtos nacionais disponíveis em preços competitivos com os similares importados. Quando eu comecei a “brincar” com computadores de verdade – lá pelos meus 12, 13 anos – pensar em um computador feito no Brasil era um sonho muito distante. Não havia indústria nacional e  todos estávamos habituados a procurar pelo produto “importado” (talvez trazido seja o termo mais correto) do Paraguai pelo fornecedor mais confiável e o preço mais em conta.

O que tínhamos por aqui era uma verdadeira profusão de sacoleiros, feirantes e lojas de caráter duvidoso que tinham alguém que trazia os produtos para serem vendidos por um canal não muito oficial. Não era considerado certo ou errado: era simplesmente a maneira que sempre foi feita. Talvez aí esteja a razão por termos uma geração na casa dos 30 anos que está acostumada a abrir o computador e entender o que tem lá dentro. Afinal, quase sempre comprávamos as partes em separado e montávamos tudo nós mesmos. Garantia? Como diziam os paraguaios para quem viajava até lá na época: “la garantia soy yo!

O  cenário permaneceu inalterado por muitos anos, até que alguma “boa alma” no Congresso criou a Lei da Informática. Ela é um pouco complicada e teve muitas alterações ao longo dos anos sempre adicionando novos Mercados, mas tem um artigo aqui no site do MDIC que resume bem seus principais dispositivos. O resumo da ópera é: quem investir em pesquisa e desenvolvimento e mantiver um percentual da produção no Brasil ganha incentivos fiscais, ou seja, deixa de pagar alguns impostos. Em alguns casos a redução chega a 90%. O que aconteceu a partir daí é história e todos já sabem: nasceu uma indústria de Informática que simplesmente não existia.

É claro que a coisas não aconteceram rapidamente e ainda há muitos problemas, dentre eles o que mais me irrita: por que todos continuam fazendo venda casada com Windows? Eu não queria essa porcaria, e sim, sei que dá pra pedir o dinheiro da licença de volta, mas o que eu queria era simplesmente comprar um computador BOM (não essas porcarias que eles oferecem) e poder instalar a distribuição Linux de minha preferência. Contudo, isso não muda o fato de que os preços finalmente estão MUITO competitivos. Acompanhei a Black Friday e a Ciber Monday nas principais lojas nos EUA e não consegui encontrar nada muito melhor do que o meu computador no preço que eu paguei. Para quem cresceu aprendendo a montar gabinetes e reaproveitar componentes aqui e ali, comprar um bom computador nacional COM GARANTIA (que aliás, ainda estendi por mais 2 anos. 3 anos de garantia no computador) é quase surreal. Quando lembro de comprar um pente de memória para instalar e dar conflito com a placa-mãe me dá vontade de rir (quem nunca sofreu com isso?).

Aí está a importância das medidas que estão prestes a entrar em vigor. Já foi aprovada na primeira comissão e ainda há mais duas onde a Lei precisa passar, mas não dá nem pra imaginar o que pode acontecer com a aprovação da Lei. Na verdade dá: basta passar aqui e ver esse post no site da Acigames. Todos, tanto fabricantes de plataformas quanto desenvolvedores de jogos em todos os níveis são unânimes em afirmar que o Brasil é o Mercado com maior potencial no mundo. Afinal, videogame de boa qualidade está longe de ser um produto acessível por aqui. Para efeito de comparação, o que custa um videogamente como o Wii em um Mercado como o americano, feito para ser mais barato, é o mesmo que muitas famílias no Brasil pagam por um telefone pré-pago. Um PS3, que aqui é item de luxo, é um brinquedo comum na casa de muitos adolescentes lá fora, pois custa menos da metade que um computador de última linha.

Podemos estar perto de ver o nascimento de um setor talvez até maior que o de computadores pessoais no Brasil. O Mercado de videogames já é o maior na área de entretenimento, e  Call of Duty Modern Warfare 3 é o produto mais vendido da história na área. Não é só os fabricantes e criadores de jogos multinacionais que se beneficiam, pois o modelo de distribuição de videogames praticamente exige jogos para a região. Arriscaria dizer que se trata de uma medida ainda mas promissora, pois em combinação com os investimentos em P&D que certamente acontecerão, por que não ter uma grande fabricante nacional de jogos?

Para finalizar, como eu também já disse por aqui, a sociedade precisa entender o poder de mobilização que possui. Enquanto muita gente ficava de “mimimi o Governo não faz nada” e outros mimimis do tipo, havia gente trabalhando sério pela causa. Vale destacar a figura do incansável Moacyr Alves, presidente da Acigames, que sacudiu a poeira e reuniu ao redor da mesma causa os empresários do setor. Fez incontáveis reuniões e palestras explicando a importância do Mercado de jogos, além de ter criado a bem-sucedida campanha do #jogojusto. Que sirva de lição para todos sobre o poder que temos em nossas mãos e muitas vezes não usamos. Os que sabem como fazê-lo se tornam revolucionários e são os agentes das mudanças necessárias para a sociedade.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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