Cidadão Digital

O tema de hoje está também relacionado ao Mercado de TIC. Acompanho alguns sites de vagas e vejo que está cada vez mais comum  anúncio para “Administrador de Redes Sociais” ou “Analista de Redes Sociais”. Outro dia coloquei no Twitter que achava essa uma profissão completamente sem futuro, e algumas pessoas me questionaram dizendo que em todos os rankings de vagas ela aparece como uma das mais promissoras. Devido ao grande número de vagas, acho que vale a pena explicar um pouco melhor o que eu quis dizer.

Antes de continuar, contudo, é preciso entender o termo ciberespaço. Já tratei dele aqui no blog várias vezes, e sempre recomendo o mesmo link para quem quiser conhecer o assunto um pouco mais a fundo. O fato é que temos um mundo digital formado pela “projeção” das pessoas em um ambiente digital, onde em muitos casos pode ser tanto a manifestação e um alter ego como o ego em um novo meio de convivência.

Com a proliferação das redes sociais os mais antenados e, principalmente, os mais jovens estão criando clusters de convergência onde todas as suas manifestações no ciberespaço estão agrupadas ou simplesmente reunidas. Talvez esteja aí o grande diferencial do facebook: foi o primeiro a enxergar sua plataforma como um espaço de notificação de suas atividades para seus amigos. Mais importante ainda: foi aquele que enxergou a importância de criar vários nichos globais, controlando a privacidade de suas interconexões e começando em grupos altamente exclusivos. No início era apenas um ponto onde as pessoas de uma determinada camada de elite numa universidade poderiam obter informações sobre as outras, e ser exclusivo era parte importante do processo.

A plataforma evoluiu para uma potência global, mas o seu grande chamariz continua sendo o mesmo: um lugar onde eu posso me conectar com meus amigos. Contudo, a comunicação/conexão acontece de dezenas de formas diferentes. Ás vezes vamos para uma festa juntos e no dia seguinte as pessoas estão colocando fotos e comentando umas com as outras sobre os melhores momentos da noite; em outras oportunidades tenho algo muito rápido a dizer que logo vai para o twitter, já integrado com a plataforma. Posso ainda dizer os vídeos que estou vendo (Youtube), os lugares que visito (Foursquare) e até mesmo as páginas que visito (diigo e del.icio.us).

Olhando a “grande figura” das relações que se construíram na rede, chego ao ponto fundamental do que queria dizer: por que as empresas precisam de “Analistas de redes sociais”? Na maior parte dos anúncios de vagas que vejo por aí as empresas querem alguém que entenda o funcionamento das redes de forma a fazer seus produtos/serviços atingir o maior número possível de pessoas. Todo o mundo quer ser a próxima Nike e fazer uma campanha com o Ronaldinho Gaúcho parecer tão real que ninguém acreditou que era uma propaganda. É o tão famoso marketing viral, que se tornou quase uma obsessão e certamente está na moda em qualquer agência de publicidade.

E por que as empresas precisam de alguém assim? Por um motivo que de tão simples que chega a ser óbvio: por que elas não sabem como fazer isso. O fenômeno do ciberespaço é relativamente recente, e as redes sociais explodiram há muito pouco tempo (o facebook tem apenas 5 anos). Contudo, o que as pessoas contratadas precisam fazer é algo que muita gente faz naturalmente em seu próprio nome: comunicar-se utilizando novas mídias e, principalmente, em um novo mundo. O fato é que tais pessoas são necessárias simplesmente porque os Gerentes  e as pessoas que pensam o negócio, em sua grande maioria, ainda não sabem como tudo isso funciona. Para quem é conectado, entender o que é cada um dos serviços que eu citei é algo bastante natural. Para a minha mãe, que aprendeu e ligar o computador outro dia e não consegue entender porque o meu computador tem a tela diferente do dela (ela usa Windows, eu não) não é tão simples assim. O mesmo pode ser dito sobre as pessoas que estão no topo dessas empresas. Não significa que sejam incompetentes ou algo parecido, eles simplesmente viveram em um mundo diferente.

Estamos evoluindo para um cidadão digital: alguém que existe desde sempre no ciberespaço, conhece as funcionalidades da rede e sabe migrar ou adotar uma nova plataforma que lhe parece interessante. Assim, estamos vendo alguém que já nasce como “Analista de Redes Sociais” em potencial, e não precisa trabalhar exclusivamente nisso. Sua plataforma de socialização é a Internet, e utilizar as redes não é o seu trabalho: faz parte dele. Já escrevi aqui também como as empresas cometem um suicídio digital ao bloquear suas redes corporativas. Os pais que proíbem os filhos de ter acesso ao mundo virtual estão cometendo o mesmo erro.

O analista de redes sociais é uma profissão sem futuro simplesmente porque seremos todos naturalmente digitais. Já seremos interconectados e veremos as tecnologias como parte de nossas vidas. As crianças aprendem a navegar na Internet antes de aprender a ler, por exemplo. Se tiverem um tablet então, nem se fala. Alguém pode então questionar dizendo que será necessário a alguém conversar com essa gente, por isso o tal “Analista” seria necessário. Contudo, essa é uma evolução natural da profissão. Há quem dica que um cirurgião precisa saber lidar com bisturi perfeitamente, mas já há cirurgias que são realizadas por robô e operadas com um controle muito parecido com o do videogame. Quem realiza cirurgia por robô é médico ou jogador de videogame? Meu pai sempre se orgulhou de ser expert em datilografia. No concurso que ele realizou teve uma prova e ele obteve o melhor índice entre os participantes. O curioso é que a prova era para contador. Da mesma forma, os jornalistas antigamente utilizavam máquina de escrever e hoje utilizam computador. São hoje operadores de computador ou jornalistas? No futuro, o profissionais de marketing continuarão sendo profissionais de marketing e a rede fará parte naturalmente de sus vidas. Não há como evitar.

Como sou chato, vale lembrar que o conceito de cidadania é muito mais amplo. Não basta apenas conhecer a tecnologia, mas conhecer suas implicações e entender suas responsabilidades ao usá-la. O facebook é dono de todas as suas fotos. Você sabia disso? Se você mandasse fazer um álbum e a pessoa que o imprimiu expusesse suas fotos em um outdoor você concordaria com isso? Reflita sobre o tema e veja que muita coisa já aconteceu com quem confiou cegamente nos serviços oferecidos “gratuitamente”. Aproveite e reflita um pouco sobre a sua educação e aquela que você deseja propagar para seus filhos.

Para finalizar, não podemos nos esquecer que não vivemos na Matrix (ainda). Por mais que sejamos cidadãos digitais conscientes e atuantes, a vida no ciberespaço não é suficiente por si só. O Egito já nos mostrou o caminho. Os espanhóis nos mostraram o caminho. Occupy Wall Sreet nos mostrou um outro caminho. Nós brasileiros aprendemos devagar e ainda não estamos seguindo nosso próprio caminho. Que tal um pouco mais de ativismo em complementação ao ciberativismo?

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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