Tomando o controle da Internet

O tema de hoje foi motivado por um Tweet da revista Espírito Livre, que me mostrou um novo mapa dos cabos submarinos ao redor do mundo. Antes de mais nada, o post é uma continuação do que escrevi em 2010 sobre os verdadeiros donos da Internet. Passe aqui e dê uma lida nele antes de continuar, pois é fundamental para o que vamos tratar em seguida. Depois, dê uma navegada no mapa interativo de cabos submarinos ao redor do mundo e tire suas próprias conclusões.

Agora estamos prontos para uma errata: de fato há um cabo que nos conecta à Internet passando pela África e está ativo desde 2002. Seu nome é Atlantis-2 e pertence sabe a quem? Ele mesmo, que já foi considerado o homem mais rico do mundo algumas vezes: o mexicano Carlos Slim. Tendo em vista esse detalhe todo o resto que escrevi sobre os donos da rede continua valendo: quem manda são os americanos. Contudo, vamos nos ater a uma pequena parte da figura, que tomei a liberdade de cortar do mapa para colocar aqui. Deem uma olhada:

Trecho com a conexão Brasil-África

Se perceber bem, o mapa de cabos submarinos traz um novo ramal de conexão Brasil-África. Na verdade tratam-se de três ramais, que pelo que pude descobrir pertencem a três companhias diferentes. O cabo Angola-Brasil que é o de cima dessas duas linhas de cabos próximas umas das outras não tem muita informação e não tem nada de bastidores, então não posso falar muito. É um projeto que será bem-vindo se for realizado. O primeiro de cima se chama Wasace e já tem até site da companhia na Internet com informações sobre a sociedade e alguns (poucos) detalhes técnicos. O fato é que vai sair no primeiro quadrimestre de 2014, ou pelo menos tem previsão de ficar pronto nesse prazo. Como o próprio site diz, é uma obra para a Copa do Mundo.

Contudo, quero chamar a atenção de todos para o terceiro de baixo na imagem, que se chama South Atlantic Express (SAEx) e tem propriedade de um grupo chamado efive. Fiz uma busca na Internet e o que descobri foi muito interessante: o SAEx é formado por três grandes players, como pode ser visto em seu site aqui.

  • GlobeNet cable system in Fortaleza
  • WACS/SAT3 in Cape Town
  • SEACOM/EASSy in Mtunzini

As empresas africanas são cabos de companhias nacionais privadas que desempenham um importante papel na estrutura de comunicação nacional dos países acima. O SAT-3/WASC é especialmente importante, pois representa a conexão de toda a África com a Europa, além de contar com várias empresas dos países por onde passa. Da parte brasileira, o GlobeNet pertence à Oi e faz parte do espólio do antigo sistema Telebras que foi “herdado” pelas várias empresas durante a privatização.

Se você conseguiu chegar até aqui, parabéns. A maior parte deve ter parado no segundo parágrafo achando toda essa informação muito chata, mas esses pequenos cabos dizem muito sobre a liberdade na Internet. Se a iniciativa for levada a cabo – como parece que vai ser – e o SAEx ficar realmente pronto, será praticamente impossível a um só país decidir “desligar a Internet”. Na verdade o maior perigo para toda essa rede reside justamente no Brasil, pois os cabos da GlobeNet fecham o círculo para cima levando nossa conexão até os EUA. Assim, se fecharmos a porta os africanos teriam motivos para ficar chateados.

Para nós é fundamental possuir uma outra porta de saída. Com a construção desse ramal, caso ocorra algum problema na conexão com os cabos da Embratel, podemos simplesmente virar a chave e redirecionar todo o nosso tráfego para a Oi e sair pela África. Aos defensores da privatização das telecomunicações, entendem agora a importância de se ter uma grande empresa nacional na área? Se não temos uma empresa nacional estamos sujeitos às decisões da matriz, que pode fechar esse ou aquele canal com base em interesses sabe-se lá quais. Esse foi um dos principais motivos para o governo brasileiro ter incentivado a fusão entre Oi e  Brasil Telecom: temos agora um grande player nacional que possui capacidade de interligar todo o país caso algo de “estranho” aconteça com os outros provedores. Ou alguém ainda acha que Internet e comunicação é supérfluo?

Vou aproveitar para dizer mais uma vez em que ponto as privatizações foram extremamente prejudiciais. Os mais antigos da área (sim, eles ainda existem) sabem que o fato de existir poucos telefones no começo da década de 90 e a quantidade de linhas ter estourado após as privatizações é que as empresas do Sistema Telebras possuíam padrões de qualidade extremamente rígidos, que simplesmente deixaram de existir. Onde existia uma, duas linhas eles plugaram cem da noite para o dia, sem investir UM CENTAVO em aumento da rede. Quando falo em aumento da rede não estou falando em levar uma linha de telefone até a sua rua, que é importante, mas não é o grande custo em comunicações, principalmente no Brasil. Estou falando em passar cabos e linhas pelo país afora, criando conexões entre grandes e pequenos centros. Se olhar o mapa do cabos no Brasil, vai perceber que a maior parte deles foi construído antes da década de 90, pois as empresas privadas não investiram NADA nisso. Não fosse o sistema Telebras não haveria Internet na maior parte das cidades do Brasil até hoje. Estaríamos ainda no eixo Rio-SP, pois é aquele que dá lucro.

Para finalizar, é muito gratificante ver algo que você ajudou a idealizar sair do papel. Estive em uma reunião com o Governo da África do sul onde o pessoal da RNP idealizou o SAEx. A ideia foi tão boa que a sensação de todos na reunião foi de “como não pensei nisso antes”. Claro que minha participação não passou de estar lá e ver isso acontecer, mas fiquei orgulhoso mesmo assim. Se soubéssemos a força que temos enquanto grupo de países “subdesenvolvidos” já seríamos protagonistas há muito mais tempo.

Agora é fiscalizar e esperar que o cabo saia na data prometida, um quase milagre em se tratando de Brasil.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

There are 1 comments. Add yours

  1. 9th November 2012 | vagner says:
    precisamos de rotas de baixa latência para a Africa, Europa, Asia e Oceania. Dos EUA só precisamos de mais capacidade de tráfego. Seria interessante um cabo submarino ligando Fortaleza à costa oeste americana pois é da Califórnia que vem boa parte dos dados.

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