Bye, bye, Britannica!

Na semana passada repercutiu no mundo inteiro o fim da edição impressa da centenária Enciclopédia Britannica. A revista Wired publicou uma reportagem explicando a principal causa de sua morte, traduzida no site código-fonte. Vale a pena acompanhar a discussão na lista de EAD da Unicamp, em especial esse post do Jaime Balbino. Me sinto muito à vontade para tratar do assunto, pois tive a honra de pertencer ao quadro de vendedores da famosa enciclopédia aqui no Brasil por quase um ano, que em sua versão brasileira chama-se Barsa. Se você receber alguma ligação do Grupo Planeta ou algo do tipo, já sabe do que se trata: meus ex-companheiros de trabalho vendendo a famosa enciclopédia.

Poderia passar alguns minutos explicando algumas das práticas que a empresa adota no Brasil com seus “funcionários”, ou melhor, representantes autônomos, mas perderia o foco no que é realmente importante: a enciclopédia impressa versus o computador e a Internet. Quem quiser falar algo (desabafar) fique à vontade para utilizar a área de comentários.

Durante o tempo que trabalhei na Barsa pesquisei muito sobre educação infantil, principalmente no sentido de provar como a leitura em papel não é igual à leitura na tela do computador. A tela com luminosidade, seja LCD, LED ou outras tecnologias parecidas, não fornece o que os estudiosos chamam de leitura reflexiva. Somos até capazes de ler em tais telas, mas não conseguimos manter a concentração por muito tempo ou gravar o que estamos lendo. Sempre andei com estudos debaixo do braço para mostrar como argumento aos pais de que eles deveriam adquirir a Barsa para ajudar seus filhos a desenvolver o cérebro corretamente. Citava ainda a importância da pesquisa em conjunto, ou simplesmente acompanhar seus filhos durante as tarefas de casa, o que representava em todos os estudos o maior impacto na melhoria dos resultados escolares.

Alguns pais não entendem, mas vai um dado que é válido até hoje: vinte minutos do dia fazendo dever de casa com os filhos tem mais impacto na educação deles do que um dia inteiro na escola. Dez minutos de conversa explicando os valores da vida valem mais do que um dia de televisão com exemplos, teoricamente, ruins do que deve ser feito por uma criança. Os pais são e sempre serão o referencial da vida de qualquer criança, sempre para o bem. Por mais que um pai faça muitas coisas consideradas pela maioria ruins, são as lembranças afetivas e positivas que se mantém no imaginário da criança. Sim, estão faltando as pesquisas e dados para comprovar o que digo, mas se formos por aí esse post vai virar uma monografia. Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, utilize a caixa de comentários que terei prazer em compartilhar o (pouco) que (acho que) sei.

Voltando ao assunto Barsa, ao viajar pelo interior do Brasil oferendo enciclopédias eu sempre acreditei que estava contribuindo para a melhoria da educação no páis. Em 2003/2004, período em que me dediquei mais à atividade, a média de leitura de livros por aqui girava em torno de 2 a 3 por ano para cada pessoa. Divulgar a enciclopédia era uma cruzada pessoal para ajudar a alterar essa realidade, e entregamos Barsa em cidades que não possuíam biblioteca pública ou livros à disposição. Essa era a parte que realmente me orgulhava do trabalho.

Contudo, saí do ramo, me voltei à área de tecnologia e o mundo mudou radicalmente, principalmente a partir de 2005/2006. A explosão da interatividade na rede mudou a forma com a qual nos relacionamos com a Internet. O Brasil mudou, o mundo mudou, eu mudei e as escolas mudaram. Quando li o livro Wikinomics um trecho em especial me chamou a atenção: em um pesquisa feita por uma revista comparando os artigos mais buscados na Britannica e na Wikipedia, a diferença de qualidade era praticamente inexistente. Mais ainda: os erros encontrados na Wikipedia foram corrigidos imediatamente, enquanto a Britannica precisaria esperar o próximo ano para publicar uma correção. Ou seja: em algum momento da pesquisa a Wikipedia continha menos erros que a Britannica.

Mas e a questão da leitura? As crianças não precisam mais ler? Sim, a leitura é fundamental, mas vamos refletir: além de mim (que sou meio louco), quem mais lê enciclopédia e dicionário? Compêndios genéricos são utilizados como fonte de pesquisa, não necessariamente de leitura. Nenhum artigo da Barsa vai trazer mais do quatro páginas de texto, ou seja, mais ou menos o tamanho desse post para os grandes artigos. E existem ainda os artigos para referência cruzada, onde é necessário abrir um livro de palavras de referência que te leva pra outro livro onde está assunto. Incomparavelmente mais lento que o Google. Não é na enciclopédia que se forma o hábito de ler. Nesse ponto, estou muito esperançoso. Leia esse post do Fabio Yabu e veja como evoluímos nesse aspecto desde os meus tempos de Barsa. Será que precisamos mesmo de uma enciclopédia impressa?

Por fim, eles podem argumentar que existe a versão digital e o serviço, que hoje se tornaram a principal fonte de receita da empresa. Na Barsa, empresa brasileira, ainda não é assim, mas deve ser o caminho natural. O ponto se torna então mais objetivo: conhecimento pago ou livre acesso ao conhecimento? A pergunta passa pelo ponto do provisionamento, também muito bem explorado pelo Wikinomics: se o conhecimento é grátis, quem paga por ele? Os pesquisadores vão simplesmente publicar o que descobrem sem esperar nada em troca?

Acredito no acesso livre ao conhecimento, provisionado em conjunto por governos e sociedade a partir do momento que pararem de ver o acesso como mercadoria e tudo o que for gerado como um produto no sentido mercantilista da palavra. Nunca houve uma quantidade tão grande de conhecimento disponível de maneira aberta como hoje, mas algumas amarras estão sendo feitas para que parte dele seja fechado de alguma forma. Como vamos lidar com esse dilema será resultado da guerra pela informação. Todos os países estão fazendo os seus movimentos; o cidadão está fazendo seus movimentos; as empresas estão fazendo seus movimentos.

Bye, bye, Britannica. Durante muito tempo você foi a única fonte. Esperamos que não volte a ser.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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  1. 25th March 2012 | Mayanni Alves says:
    Oi Eduardo, sou estudante de um curso técnico em redes de computadores, conheci o teu site em uma aula, meu professor utiliza teus textos como exemplo (dando todo crédito, é claro), todos meu colegas gostaram muito do teu blog e tornaram-se leitores assíduos, pois vc utiliza uma linguagem fácil de entender, já que somos iniciantes no assunto. Obrigada e parabéns :)
  2. 26th March 2012 | Eduardo Santos says:
    Olá Mayanni, Obrigado pelo comentário e pelo exemplo. Fico realmente muito feliz que seu professor utilize os textos em sala de aula. Utilizo o blog muito mais como uma terapia: tenho muito para dizer e às vezes preciso registrar o que se passa em minha mente. Ao licenciar o conteúdo como Creative Commons tenho a esperança que a minha auto-reflexão possa ser útil para mais alguém. Que bom que está sendo. :) Mais uma vez, obrigado pela visita.

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