As últimas palavras que não foram ditas

Discurso de formatura que teria sido proferido no dia 2 de Abril de 2012. Teria sido, mas não foi porque não fui escolhido o orador da turma. Contudo, como foi uma experiência muito forte pra mim, resolvi escrever o discurso assim mesmo. Já faz tempo, mas não escreveria nada diferente se fosse hoje.

P.S.: Se quiser entrar no clima pode baixar o convite aqui. Sinta-se convidado(a)  🙂

 


 

 

Senhoras e senhores da mesa, meus colegas formandos, boa noite! Muito obrigado!

Apagaram-se as luzes mais uma vez. Levantamos de nossas cadeiras e tomamos o caminho de casa. O sentimento é um misto de alívio e preocupação. Durante anos sonhamos com este momento, mas quando ele chega é como se não estivéssemos preparados, mesmo tendo certeza que estamos. Foram anos de luta e dedicação onde crescemos como pessoas e profissionais, algumas vezes mais apesar da universidade do que por causa dela.

Sim, em muitos momentos sentimos o peso da Universidade acuados pela estrutura de ensino que não foi feita para nós, não é pensada para nós, não se reflete em nós, mas nos preenche por completo gostemos ou não. A dificuldade de atingir o grau de formado passa pela sina de superar a etapa de formando, não muito raramente prorrogada por vários semestres a fio.

Ao final de uma jornada, é o momento de olharmos para quem esteve ao nosso lado pelo caminho. Talvez eu não seja o melhor exemplo para a turma de Computação, pois o meu tempo de convivência com os colegas de turma não foi o maior dentre os presentes. Seguramente não sou também o melhor dos companheiros, pois o individualismo se tornou parte de minha atitude para vencer. Contudo, certamente sou aquele que mais tem a agradecer.

Somos dotados como seres humanos de uma tola sensação de sabedoria que nos faz relevar conhecimentos e pessoas que não consideramos importantes. Não foram somente nas aulas de Cálculo, no sofrimento do estudo de Álgebra, que aprendemos uns com os outros. Os maiores ensinamentos não são as regras e teorias da Computação, mas sim o valor da amizade. Lembraremos por muitos anos do tempo que perdemos com os livros e exercícios, mas a recordação que levaremos para o fim da vida e compartilharemos com nossos netos é o que passamos juntos. Por cada segundo de suas vidas que estiveram comigo, muito obrigado. Pela oportunidade de estarmos juntos aqui, agora, muito obrigado.

Aos queridos professores, que podemos sem medo chamar de mestres, o momento é adequado para lembrarmo-nos um pouco da história da instituição. A mesma que nos concede aqui o papel a que chamamos de diploma e em pouco tempo estará enfeitando escritórios, salas e quartos como prova do rito de passagem a que fomos submetidos. No dia 11 de setembro de 1965 tropas do exército cercaram o campus como repressão a uma greve geral de 24 horas decretada 3 dias antes protestando contra a demissão dos professores Ernani Maria de Fiori, Edna Soter de Oliveira e Roberto Décio de Las Casas por “conveniência da administração”. No dia 18 de setembro do mesmo ano, 223 dos 305 docentes pediram demissão após a publicação de uma lista com o nome de 15 colegas que seriam desligados.

A violência da ditadura que imperava no Brasil não se manifestou somente removendo fisicamente as pessoas da Universidade: representou a morte de um sonho. Um ideal cultivado pelo grande Darcy Ribeiro, mentor intelectual da Universidade de Brasília, que contagiou tantas outras mentes brilhantes e revolucionárias. Em discurso proferido quando no recebimento do título de Doutor Honoris Causa, Darcy nos alertou sobre o descolamento da realidade social vivenciado pelo ensino superior. Tomo emprestadas algumas de suas palavras que são bastante atuais:

Haverá quem pense que a universidade, como a matriz de reprodução das classes dirigentes da sociedade dentro de uma civilização, tem mais a ver com a prosperidade dos ricos que com o destino dos pobres. É até moda em nossos dias delegar aos automatismos da História as tarefas da redenção social, cuidando que os ricos mais enriquecidos socorrerão os pobres.

Essa postura, ou seu equivalente que é o desinteresse pelo bem público, é compreensível em acadêmicos de países realizados. Eles estão em posição tão favorável no fluxo evolutivo, que o funcionamento espontâneo da sociedade os levará à vanguarda dos povos. Aliás, lá, ninguém esperou nunca nenhuma contribuição fundamental dos teóricos da universidade.

Essa não pode ser a concepção de uma universidade que se quer central e inspirada de um País que não deu certo. As classes dirigentes entre nós foram e são as responsáveis maiores por nosso fracasso histórico. São também culpadas pelo tipo de prosperidade mesquinha que temos, incapaz de estender-se ao povo. Em nossas circunstâncias, é tarefa da Universidade criar intencionalmente elites novas. Elites orgulhosas do patrimônio que herdamos do passado – um território continental e um povo multitudinário, unificados em uma nação cheia de vontade de felicidade e de progresso, pronta para florescer corno una nova civilização. Mas sobretudo elites cheias de indignação frente a realidade sofrida do Brasil. Elites fiéis ao nosso povo, prontas a reconhecer que nossa tarefa maior é nos elevarmos à condição de uma sociedade justa e próspera, de prosperidade generalizada a todos.

O ensino no Brasil está falido. A universidade, que nunca antes na história desse país teve tantos recursos à sua disposição, está presa a uma estrutura hierárquica que não representa o que a sociedade brasileira necessita. Os estudantes juntos são agentes de mudança, mas chegou o momento em que precisamos de uma revolução que comece por cima. Pode parecer absurdo para alguns, mas o que os senhores professores desejam para as nossas vidas não é o que o país precisa de nós. Tampouco é o que desejamos para nós mesmos. Se o papel dos intelectuais é imaginar o futuro de uma nação, eu lhes pergunto: o que os senhores imaginaram está funcionando? Tem funcionado nos últimos 50 anos? Democracia é a liberdade para questionar, mas sem a educação transformadora que questiona de nada vale.

Finalmente, gostaria de me dirigir aos familiares. O modelo de ensino superior proposto torna muito mais difícil terminar a Universidade sem o apoio da família. Somente quem está dentro de casa todos os dias sabe o que é ser parente de um aluno da UnB. Pedimos perdão a todos vocês do fundo do coração e assumimos o compromisso de retribuir com todo o esforço tudo o que nos foi dado. Seria impossível chegar aqui sem o seu amor, então essa vitória é de vocês.

Meus amigos, ao chegar o final da jornada, é o momento em que devemos nos orgulhar do que construímos. Não me refiro ao papel escrito diploma que recebemos. Também não me refiro somente ao conhecimento adquirido através do estudo, objetivo que, em teoria, é o principal do ensino em qualquer esfera. Saímos moldados como as árvores do Cerrado que permeiam a cidade hóspede do templo de saber que desfrutamos durante todos esses anos: mesmo que sejamos alvejados por chamas que consumam nossa casca, nossas raízes têm força para reconstruí-la quantas vezes forem necessárias. Deixamos de ser jovens calouros sonhadores, mas jamais deixaremos de ser os agentes de transformação que nos tornamos aqui.

A todos os presentes, muito obrigado!

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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