A incrível e surpreendente literatura brasileira

O texto de hoje foge um pouco dos temas que tenho abordado no blog, mas não pude deixar de lembrar ao ver o tweet do Raphael Draccon. Se você espera ler sobre Machado de Assis, Castro Alves ou qualquer outro desses enquadrados no “topo” da literatura nacional, pode parar por aqui. Nem mesmo Jorge Amado e seus Capitães de Areia serão citados, pois não são e não foram relevantes pra mim.

Sempre gostei muito de ler, e sei claramente onde começou a paixão pela leitura: mais uma vez na escola. Apesar de pequena, pública e carente de recursos, minha escola fundamental conseguiu montar uma pequena biblioteca com a ajuda dos pais e professores. Era tão pequena e tinha tão poucos títulos que cada aluno só podia pegar um livro por semana. Podia parecer pouco, mas ler um livro por semana durante a escola dá uma média de pelo menos uns 30 livros por ano. Considerando que na época eu tinha uns 10 anos, o número não era tão insignificante assim.

Meu primeiro contato com a literatura se deu através da maravilhosa Série Vagalume da Editora Ática. Não tenho como descrevê-la por completo, mas é possível encontrar mais informações aqui (leitora viciada) e aqui (vitrine de livros). O encontro com esse tipo de literatura foi tão marcante que consigo relembrar exatamente o que senti quando li meu primeiro livro da série: O Escaravelho do Diabo. Voltei à biblioteca todos os dias naquela semana tentando continuar lendo aquela série de livros, mas a regra era que só podíamos pegar na Sexta-feira. Desde aquela época passou a ser o meu dia mais esperado na semana.

Contudo, apesar de gostar muito de ler, uma mudança significativa na maneira com a qual eu me relacionava com os livros só voltou a ocorrer quando assisti o filme História Sem Fim no cinema. A cena onde o menino vai para o sótão da biblioteca e acende uma vela fez com que eu me identificasse imediatamente. A partir daí, todas as vezes em que lia um livro me sentia com o pequeno Bastian em seu sótão viajando por um mundo fantástico, algumas vezes carregados por criaturas fantásticas, outras por personagens importantes da história. Aliás, nunca entendi porque minha casa não tinha sótão. Ainda é meu sonho de consumo.

A partir daí comecei a interessar por histórias fantásticas e mundos fantasiosos, que eram capazes de me transportas para outras realidades. Obviamente, meu título preferido (após História Sem Fim, é claro) logo se tornou O Senhor dos Anéis e seu universo. Também admirava (e admiro) muito obras de ficção científica como Eu Robô de Issac Asimov e outras. Mesmo navegando pelas obras e conhecendo seu universo, sempre vi os autores como pessoas muito distantes de mim, que tratavam a cultura de uma forma diferente em uma realidade diferente da minha. Afinal todos os meus autores preferidos eram estrangeiros e moravam em lugares muito diferentes do Brasil.

Durante muito tempo me conformei com o fato e me acostumei a frequentar a sessão de Literatura Estrangeira das livrarias, já que nunca havia nada de meu gosto feito por autores brasileiros.

A realidade começou a mudar em meados do ano passado quando fui apresentado ao Nerdcast por um amigo. Como quase todo o mundo que conhece, comecei a ouvir compulsivamente os programas – inclusive os mais antigos – e percebi que um assunto foi recorrente durante um certo tempo: o livro A Batalha do Apocalipse.

Confesso que a princípio resisti um pouco ao livro, pois tenho pela literatura brasileira o mesmo preconceito que tenho em relação aos filmes brasileiros. São em gerais cabeças demais, focados em realidades específicas demais, com mensagens demais e filme de menos. Os livros nacionais ainda tinham o agravante de ser extremamente arrastados e rebuscados, tornando a leitura quase uma maratona insuportável. Li somente os que fui obrigado na escola, e mesmo assim a maioria deles não cheguei a ler realmente. Quem nunca fez o famoso trabalho sobre o livro pra não ter que ler aquela chatice?

De tanto ouvir o Nerdcast acabei decidindo comprar um livro, e fui incrivelmente surpreendido. Tratava-se de uma história fantástica com base na ficção sobre a religião que eu simplesmente adoro! Consumi o livro tão rápido que ao chegar nos últimos capítulos fui ficando triste. Era a primeira vez que eu lia uma história interessante que se passava no Rio de Janeiro (pelo menos em parte)! A sensação após o término foi simplesmente terrível, e fiquei tão frustrado que passei algum tempo sem ler.

Foi então que, através do twitter, entrei em contato com Raphael Draccon. Dizia-se ser um autor de fantasia também, com uma série baseada em histórias que conhecíamos. A princípio, fui tomado do mesmo medo que tive em relação ao Eduardo Spohr e sua Batalha do Apocalipse. E se fosse mais autor chato ou apenas outro tentando copiar uma realidade que ele não conhece? Contudo, calculei que o risco era baixo sempre ponderando que o livro não é gasto, mas investimento, e decidi me arriscar. Adquiri um box da saga Dragões de Éter.

As primeiras páginas tiveram uma sensação quase de susto. Como assim tinha alguém conversando comigo durante o livro? Depois fui levado a um grupo de adolescentes em um universo que lembra o fantástico medieval que tanto adoro mas que falam gírias? Como um golpe de mestre, o primeiro livro da saga traz histórias que também tenho um certo preconceito por serem de criança, mas em uma forma que eu jamais tinha imaginado. A leitura foi me envolvendo cada vez mais e fui sugado para dentro do universo de éter.

O mais incrível de ler a saga é enxergar referências muito próximas do dia-a-dia em uma aventura completamente fantástica. Como envolver na mesma história Tropa de Elite, Chapeuzinho Vermelho e João e Maria? Como colocar facções de favela do Rio em uma história situada dentro de um castelo medieval? Simplesmente incrível.

Observar o nascimento dessa geração que parece estar escrevendo especialmente para mim é um momento muito especial. Todas as vezes que abro um livro ainda faço o mesmo ritual que aprendi com História Sem Fim e viajo para dentro daquele universo. Como agora as histórias estão mais próximas de mim é como seu eu estivesse permanentemente em um mundo fantástico. A fantasia tem o poder de transformar a realidade em um mundo mais feliz, e muito da minha redescoberta da leitura devo a esses extraordinários autores.

Muito obrigado Raphael Draccon, Eduardo Spohr e outros por me proporcionar momentos tão maravilhosos acompanhado de suas histórias. Se alguma coisa é capaz de mudar o nosso país certamente é a leitura, e vocês são parte muito importante disso.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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