Uma ode aos professores

No momento em que escrevo essa mensagem estamos no dia 15 de outubro de 2012, definido no Brasil como dia do professor. Numa auto-análise imediata percebo que a acabo falando mal de tudo o que gosto. Em viagem à Alemanha, ao conversar com um amigo Lituano recebi palavras que causaram uma profunda percepção de mim mesmo: “você é um péssimo propagandista do seu país”. Percebi que ao falar do Brasil me preocupei mais em expor os problemas de nossa sociedade do que em exaltar o país que amo tanto. A mesma analogia vale para os professores.

Antes de começar a expor meus sentimentos, gostaria de deixar claro que também sou professor, por mais que não tenha a menor vontade de exercer a profissão novamente. Sou formado em Computação como licenciado, ou seja, poderia dar aulas de informática, e fiz até o último semestre de Licenciatura em Física. Não terminei por alguns motivos que talvez um dia trate por aqui, mas esse não é o ponto. O ponto é deixar claro que minha opinião é, obviamente, tendenciosa. Mas qual opinião não é?

Falar dos professores é, para mim, falar de sonhos. Não acredito que o professor tenha uma capacidade tão grande assim de tornar o aluno um excelente profissional ou fazê-lo ter excelentes notas. Até porque a nota não significa absolutamente nada em nosso sistema educacional: trata-se apenas de uma ferramenta utilizada pelos professores e pais para coerção dos alunos. O sistema educacional brasileiro e mundial não é capaz de avaliar e, pior ainda, estimular o talento e a criatividade. Contudo, um grande professor é capaz de plantar uma semente na mente do aluno que, dependendo de algumas variáveis do ambiente como oportunidade e esforço do próprio, podem gerar um excelente profissional.

Plantar a semente não é apenas tornar a experiência de aprender em algo interessante e motivador: tal tarefa DEVERIA ser a principal de QUALQUER professor. Se não para isso, para que serve a pedagogia? Quando falo de plantar a semente, estou me referindo a colocar no coração do aluno a chama do desejo de aprender que poderá ser cultivada até tornar-se algo realmente grandioso. É aquele professor de biologia que cria um futuro médico ao citar a beleza de salvar vidas; é o professor de educação física que ensina a transformação social através do esporte; é aquele professor que diz a verdade sobre a sua vida e mostra como é preciso levá-la a sério.

Me lembro de dois momentos especiais com professores. O primeiro foi já no começo do terceiro ano do segundo grau quando uma professora de artes entrou na sala encenando o livro O Pequeno Príncipe no momento do encontro com a raposa. Eles logo se apaixonam um pelo outro, não no sentido romântico, mas sim da descoberta da verdadeira amizade. Na ocasião em questão estávamos conhecendo um ao outro: era o primeiro dia de aula da professora, que buscava cativar os alunos com sua entrada em forma de poema. O resultado foi profundo na mente de alguns companheiros de sala, que descobriram não só o desejo por outras profissões, mas um novo ego dentro de si mesmos que precisava aflorar. Para mim, foi uma excelente técnica de ensino: tirei a maior nota em artes entre todos os alunos que fizeram o vestibular. Praticamente gabaritei a prova.

A outra experiência marcante deve-se a uma transformação social. Como já disse por aqui, tenho muito orgulho de ser fruto de escola pública, onde inegavelmente as chances de sucesso profissional são menores. Estávamos mais uma vez jogando futebol na escola em um turno contrário à aula. Um de meus melhores amigos, o irmão que nunca tive, é mais negro do que eu, assim como era o professor. Ao ver que estávamos mais uma vez saindo do futebol quando o professor chamou esse aluno para uma conversa. As suas palavras foram muito duras, tanto quanto nunca tinha visto na escola até aquele momento, e seu discurso de uma sinceridade e realidade marcante. Em poucas palavras ele expôs o óbvio: éramos todos alunos de escola pública e meu amigo-irmão era negro (mais que eu). Por conta da situação as nossas chances de sucesso na vida eram muito menores do que a de outros colegas, que estudavam em escolas particulares e tinham a pele branca. Não podíamos nos dar ao luxo de perder as tardes de nossa juventude jogando futebol e fazendo nada na escola: precisávamos nos dedicar mais, pois a vida não teria pena de nós por termos sido menos privilegiados. Alguns anos depois, tenho orgulho de ver como todos os meus colegas de escola tiveram um rumo na vida, inclusive meu amigo-irmão.

A outra lembrança do mesmo professor faz parte da minha principal crítica à categoria: no ano do vestibular tivemos mais uma greve. Mais uma porque me lembro de ter greve praticamente todos os anos de meu ensino regular, só que essa doía mais. A greve começou em Junho e ainda em Novembro estávamos sem aula. A solução? Passamos a nos reunir na escola, sob a orientação do mesmo professor, para estudarmos para o vestibular durante a greve. Estávamos nos esforçando, ainda que de forma capenga pois precisávamos aprender e ensinar assuntos que não conhecíamos, até que um dia o sindicato “baixou” na escola. Meu professor foi acusado de fura-greve e os seus “colegas” nos expulsaram da escola quase que à força. Me lembro de quase termos ido às vias de fato porque queríamos usar um espaço público (a escola) para estudar por conta própria. De acordo com os grevistas, a escola era deles. Transferimos então o grupo de estudos para a biblioteca da UnB e o resto é história: quase todos foram aprovados.

Vale a pena repetir o óbvio, pois parece que as pessoas ainda não entenderam o que é óbvio: a EXPRESSIVA maior parte dos professores do Brasil é muito mal remunerada. Sim, professores em geral ganham muito mal. Contudo, não acredito que a melhor maneira de mudar a situação seja deixar os alunos, parte mais fraca dessa equação, sem aulas. O direito à educação é maior do que o direito à greve, e acho conceitualmente errado servidor público, um funcionário do povo, fazer greve. Se o patrão é o povo, ao fazer greve o professor (e outros funcionários públicos) está punindo a população.

Após tantos anos de opressão e desvalorização vejo nos professores um sentimento muito parecido com o dos jornalistas após a ditadura: para se defenderem tornaram-se extremamente corporativistas. Por não ser bem remunerado o professor simplesmente não aceita que alguém diga a ele como deve realizar seu trabalho. Qualquer interferência no que acontece dentro de sala de aula é considerado um crime capaz de revoltar toda a categoria. Ao mesmo tempo temos situações em que professores são agredidos e desrespeitados por alunos quase que diariamente. Uma equação difícil de se resolver, levando em consideração que quase todos os outros profissionais chegariam à conclusão que o esforço não vale a pena pelo baixo grau de remuneração.

Acredito, como Marx, que qualquer revolução deve acontecer por dentro. O professor é como um nadador mergulhando em meio à pororoca de uma sociedade que não o reconhece nem valoriza como deveria, e em alguns momentos até o reprime. Ao mesmo tempo, estamos falando de pessoas que assinaram um pacto social de extrema responsabilidade, que envolve colocar no coração dos seus alunos a capacidade de sonhar. É muito difícil cultivar sentimentos tão profundos com um coração tão ressentido e amargurado quanto o da maioria dos professores. Aquele amargor de quem tem a consciência de estar fazendo algo realmente importante, mas que não será valorizado por quase ninguém pelo seu feito.

Por isso meus amigos, gostaria de me dirigir a vocês como colega de profissão (que não exerço) e propor a todos um novo pacto social. Não podemos mais esperar que façam por nós aquilo que desejamos e merecemos, mas podemos nos transformar os verdadeiros agentes da transformação que precisamos ser, que o país espera de nós. Não discordo da professora Amanda em absoluto: suas observações estão 100% corretas. Mas que tal se, ao invés de fazermos como eu e apontarmos os muitos problemas que já existem, passemos a nos dedicar de corpo e alma a inspirar os sonhos de nossos alunos? Sei que muitos de nós já o fazem, mas que tal deixar o salário de lado, esquecermos a ignorância da sociedade e chegarmos em sala amanhã dispostos a dar a melhor aula de nossas vidas? E que tal repetirmos a atitude no dia seguinte? E no outro? E que tal fazermos disso nossa rotina, sem falhar um dia sequer?

Muitos lerão o que escrevi e lembrarão das contas a pagar, das muitas horas em sala por dia, dos alunos violentos, das más condições de trabalho, enfim, de suas rotinas. Não há como julgá-los, e ninguém que viva no Brasil tem condição moral de julgar um professor que se sinta desmotivado. Contudo, vale lembrar que as más condições são um fato; ser derrotado por elas é uma escolha. Se escolhermos vencer um dia após o outro não tenho certeza que seremos reconhecidos, mas certamente teremos vencido.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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