O que é um Hacker?

Coluna de tecnologia publicada no Portal dos Calangos

Acompanhe a coluna: http://calangos.net/tecnologia

Já faz algum tempo que quero escrever sobre o tema, e motivado pela discussão sobre o balanço da Lei de Acesso à Informação num grupo essencialmente de hackers, decidi abordar o assunto. Você já deve ter ouvido o termo e, muito provavelmente, já leu alguma coisa a respeito e deve ter uma imagem mental. Vamos tentar esclarecer então: o que é um hacker?

A origem do termo contém várias referências na Internet que você pode investigar melhor se quiser, mas para não me prender muito a aspectos técnicos vou utilizar uma definição um pouco mais “social”. Um hacker sempre esteve associado a um indivíduo que tinha conhecimentos um pouco mais avançados de informática. Seria aquela pessoa capaz de enxergar a “magia” por trás de um programa de computador e entender como ele funciona. O fato de ser capaz de interpretar uma linguagem conhecida por poucas pessoas – a linguagem algorítmica – acabou por emprestar ao hacker um ar de mistério e incompreensão que os leva a algum lugar entre o desconhecido e o divino. Seu conhecimento foi considerado por um tempo completamente ininteligível.

Seguindo uma linha de raciocínio que tem origem na mistificação dos personagens, ao possuir um “poder” maior, é quase natural que se imagine sua utilização para o mau. Afinal, se você pode “falar” com o caixa eletrônico de um banco, certamente você vai pedir que ele te dê mais dinheiro do que a quantia disponível na conta, certo? Quem é fã do universo de super heróis já deve ter lembrado de alguns exemplos de personagens que embarcaram no poder “místico” de “falar” com computadores, e um exemplo mais recente pôde ser visto na finada série Heroes.

Assim foi sendo criado no imaginário popular, com uma grande ajuda da desinformação causada pela imprensa, a imagem do hacker como uma pessoa que utiliza o seu computador para realizar atividades ilícitas. Um hacker seria aquele que rouba a senha do cartão de crédito, invade sua conta no banco, te envia Spam do viagra, etc. Apesar de parte do trabalho de um hacker ser puxar a linha do que é legalmente aceito contra o que é moralmente correto, a associação costuma causar aos hackers de verdade (me incluo nessa) uma repulsa imediata.

Sim, eu sou um hacker, mas nunca roubei a senha de ninguém. O hacker é, na essência, um curioso e interessado por tecnologia; tem uma paixão enorme pela descoberta, e se interessa principalmente em conhecer a essência do contexto tecnológico que o cerca. Até por isso é (quase) impossível ser hacker sem se interessar pelo Software Livre: se um hacker é colocado diante de um software interessante, é de sua natureza querer colocar a mão no código e descobrir o que pode ser feito com ele. Em muitos casos as grandes melhorias tecnológicas propostas em projetos de desenvolvimento de software surgem da curiosidade de um hacker, que teve uma ideia criativa para um antigo problema, ou descobriu algo que os desenvolvedores originais não haviam pensado.

Como entram então os caras que tentam roubar a minha senha do banco? É importante ressaltar que o processo de busca pela inovação frequentemente esbarra em barreiras impostas pelos mais variados mecanismos sociais, sejam morais ou legais. Um dia o hacker teve a maravilhosa ideia de compartilhar músicas com seus amigos utilizando a Internet como ferramenta, e assim surgiu o Napster, pai de todos os serviços de compartilhamento que utilizamos. Era uma ideia genial, e o serviço fez sucesso quase que instantaneamente. Contudo, um dia o criador do serviço recebeu uma ligação de uma mulher dizendo:

“O seu serviço é mesmo genial. Parabéns. Mas você sabia que é ilegal?”

O inventor do Napster era um hacker, e seu interesse não era (no início)  revolucionar a indústria musical. Mesmo assim, ao experimentar e descobrir, ele acabou por quebrar algumas das leis vigentes na época. Existe uma série de hackers que aprende um pouco sobre segurança e testa seus conhecimentos tentando invadir redes corporativas que possuem falhas elementares de segurança. São o que chamamos de script kiddies, o equivalente a crianças apertando os botões da televisão, mesmo podendo desligá-la ou mudar de canal. Para eles não existe a intenção de desrespeitar a lei, mas acabam fazendo-o por pura curiosidade.

Existem vários casos de invasão deste ou daquele portal corporativo onde os hackers colocam fotos de mulheres nuas ou mensagens de protesto na página principal. O objetivo dessas pessoas não é (somente) quebrar a lei ou roubar ninguém: eles apenas estão experimentando. Em muitos casos estão também utilizando ferramentas do ciberativismo para passar uma mensagem que teria menos visibilidade em outros canais.

Por mais que sabemos tratar-se de posturas consideradas ilegais pelo nosso código vigente, existe uma diferença muito grande entre invadir o site da presidência para colocar uma foto da Dilma de barba e enviar uma mensagem de e-mail contendo um malware para roubar a senha do banco de alguém. Às pessoas que possuem intenções declaradamente ilícitas damos o nome de crackers. Esses sim são os criminosos da Internet e precisam ser combatidos.

A questão vem à tona quando alguém tenta aprovar uma legislação que transforma todos os cidadãos em suspeitos e todos os hackers em criminosos. Daí vem a importância da discussão do Marco Civil da Internet, pois essas experimentações só são possíveis porque a Internet é o único ambiente de expressão verdadeiramente livre, e estão querendo tirar isso de nós. Mas esse é um assunto para outra oportunidade, talvez em conjunto com a nossa seção de Bastidores do Congresso.

Faça um favor a um hacker: toda vez que alguém associar o nome a um crime, corrija com o termo certo: criminoso é cracker.

Artigo original de: http://calangos.net/tecnologia/2013/01/04/o-que-e-um-hacker/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-que-e-um-hacker

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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