Você sabe o que é DRM?

Coluna de tecnologia publicada no Portal dos Calangos

Acompanhe a coluna: http://calangos.net/tecnologia

Você já deve ter ouvido falar ou lido de passagem em algum lugar sobre o termo DRM, e certamente ele fugiu à sua vista logo após lê-lo, mas será que você sabe o que significa?

A melhor explicação vem através de exemplos da vida real. Os “portadores” de Iphone se vangloriam do fato de todos os documentos de áudio e vídeo em todos os dispositivos estarem sincronizados através do maravilhoso aplicativo Itunes. Se você é Apple-fã e se identificou com o exemplo, deixe-me fazer-lhe uma pergunta: já tentou pegar alguma das músicas que você comprou baratinho pelo Itunes e passar para outro dispositivo, tipo outro celular ou um pen drive para colocar naquele novo som que você comprou? Certamente seria possível tocar o som do celular transmitindo os dados através de uma conexão bluetooth, mas por um acaso você já conseguiu parear seu dispositivo Apple com outro que não seja da mesma fabricante através do protocolo?

Um outro exemplo se você não é fanático pela marca: você já tentou baixar um vídeo do Youtube? E do Netflix, se é assinante do serviço? É possível assistir os filmes até no celular hoje em dia, mas é possível assistir o filme se estiver offline?

Para o público Nerd e jogador de videogame, o melhor exemplo é o Steam, que já falei aqui no blog. Você tem uma conta, associa jogos a ela e pode baixar onde quiser, desde que esteja conectado à conta. Outro dia minha Internet caiu e mesmo tendo o jogo instalado no dispositivo, simplesmente não conseguia jogar. O motivo informado pelo Steam era que não havia nenhum jogo salvo em minha conta, então eles não poderiam saber se era eu mesmo que estava jogando.

Poderia citar vários outros exemplos, mas a questão é sempre mesma: mesmo que você compre um filme no Itunes, ele não é necessariamente seu. A posse sobre ele só acontecerá enquanto sua conta estiver ativa na Apple, e NÃO PERMITE A TRANSFERÊNCIA ENTRE MÍDIAS. Aí está a essência do DRM, ao impedir que as pessoas transfiram produtos digitais entre as várias mídias disponíveis no mercado. A princípio pode parecer uma coisa boa. Afinal, estou sempre conectado à Internet e tenho recursos para utilizar minha conta, mas o que acontece quando a relação com o fornecedor for quebrada? O que acontece aos usuários da Apple se eles simplesmente não quiserem mais utilizar o Itunes?

O DRM utiliza a desculpa de estar implementando uma tecnologia anti-pirataria para remover a posse sobre algo que você comprou. Vejam o caso que aconteceu com o leitor de livros Kindle da Amazon: uma loja cadastrou (ironicamente) os livros de George Orwell 1984 e Revolução dos Bichos como seus e vendeu pelo incrível preço de US$ 0,99. Quando a Amazon percebeu que o preço era irreal e a empresa não tinha direitos sobre os livros, o que ela fez? Apagou os livros de todo o mundo dos dispositivos Kindle. Muita gente deve estar achando o caso bom, pois a empresa impediu que o dono dos diretos do livro fosse prejudicado. Contudo, não se trata de uma compra legal ou ilegal apenas, e sim do fato de que os livros não são realmente seus.

Já escrevi sobre o complexo emaranhado de licenças envolvendo propriedade intelectual, que enganou até mesmo artistas famosos como Roberto Carlos e Zé Ramalho. Você, usuário comum e sem conhecimento de direito, certamente não tem condições de avaliar o que pode ou não ser feito com a maior parte dos livros que tem, mas vamos tentar ilustrar com um exemplo. Suponhamos que você compre um livro técnico grande demais para carregar e que possui uma importante tabela que deve ser consultada frequentemente. O que você faz? Tira cópia e põe no bolso. Você pode fazer isso? Reflita.

Agora imaginemos o seguinte caso: alguém te vende uma cópia do livro 1984, mas que você não sabe se tratar de uma cópia pois a capa, o texto, enfim, tudo remete ao livro original. Você lê, coloca na sua estante e desconhece completamente a ilegalidade do livro. Um belo dia, alguém bate à sua porta, entra na sua casa, pega o livro sem te consultar e quando você perce ele simplesmente não está lá. Ele pode fazer isso? Reflita.

Já está claro pelos exemplos acima que você realmente não possui o que compra com DRM, certo? Você pode estar achando isso um grande problema ou ignorando completamente, mas o grande ponto de toda a discussão é que não se trata somente da posse do produto. Ian Hickson, um dos caras que está liderando a discussão pelo lado do Google, escreveu um texto em seu Google+ que traz várias reflexões interessantes. A primeira delas é que o DRM é tecnicamente impossível, pois sua definição está algoritmicamente errada. Os motivos são óbvios (tradução pessoal do inglês):

  1. DRM tenta impedir as pessoas de copiar o conteúdo enquanto permite que outras vejam o mesmo conteúdo;

  2. Não é possível esconder algo que está se tentando mostrar;

  3. Os maiores casos de pirataria (Ex.: vazamento de filmes) normalmente têm origem em fontes que não estão sujeitas ao DRM na origem. O vazamento costuma vir de alguém que tinha uma cópia sem proteção no próprio estúdio.

Se o DRM é impossível tecnicamente, por que as empresas continuam tentando? Aí vem a grande reflexão apresentada por Ian: DRM não tem a ver com pirataria. É uma vertente da batalha que as fabricantes de conteúdo estão travando com as fabricantes de reprodutores de conteúdo. Quando alguém faz um DVD e coloca propaganda lá dentro, ele espera que você assista à propaganda que ele colocou. Se você conseguir gerar uma cópia do DVD que pule a propaganda está deixando o fabricante infeliz, pois aquele espaço no começo do DVD perde valor comercial.

O duelo da Apple não é somente com os fabricantes de celulares pelos melhores serviços; em algum momento é possível que exista Itunes para Android. Contudo, quantos dos famosos MP9 chineses existem no Brasil e tocam qualquer tipo de aúdio?

A grande batalha da indústria é impedir e/ou garantir que possa controlar o meio pelo qual você acessa os seus arquivos, pois esse modelo permite o controle da distribuição como sempre existiu. Se você pode utilizar um celular para baixar música pelo mesmo preço que no Itunes e ainda pode transferir para vários outros dispositivos, por que utilizar o software da Apple?

A computação em nuvem torna tudo mais perigoso, pois quase todos os nossos arquivos estão na nuvem ou copiados nela. E se o Dropbox decidir apagar um documento que você colocou lá alegando que ele continha conteúdo que infringe a segurança nacional dos Estados Unidos da América? Sim, eles podem fazer isso.

Se você utiliza algum desses serviços que utiliza DRM, é hora de pensar qual a importância do conteúdo adquirido por aquele meio. Se você respeita a liberdade, precisa se movimentar no sentido de impedir que especificações perigosas tornem-se uma realidade na Internet. Só existe uma coisa que pode impedir tais coisas de se tornar realidade: ativismo em complemento ao ciberativismo.

Artigo original no endereço: http://calangos.net/tecnologia/2013/03/22/voce-sabe-o-que-e-drm/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=voce-sabe-o-que-e-drm

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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