Login or not login? Por que precisamos de cadastro?

Para ser direto, hoje vou falar da necessidade de cadastro para baixar software no Portal do Software Público. Como o assunto está em moda por causa da discussão sobre o Novo Portal do Software Público, decidi escrever um pouco sobre o que penso. Sei que muita gente reclama do tema, e muitos me enchem o saco dizendo que exigir o cadastro para baixar o software é contra o Software Livre e muitas outras coisas do gênero. Para não ter que ficar respondendo a mesma coisa mais um milhão de vezes, resolvi me manifestar publicamente e deixar registrado. Contudo, antes de começar quero esclarecer duas coisas:

1 – Apesar de ter sido durante muitos anos o Coordenador Técnico do Portal SPB, NÃO TENHO MAIS NENHUM VÍNCULO FORMAL COM O PROJETO. Não sou responsável pelo seu desenvolvimento nem dou qualquer opinião sobre o seu futuro, então não me encha o saco!

2 – Não deveria ser necessário dizer isso, mas as minhas opiniões representam somente as minhas opiniões e mais nada ou ninguém. Não representam o Ministério do Planejamento, a empresa em que eu trabalho, minha igreja, minha associação de classe, enfim, nenhuma delas. Dito isso, vamos aos fatos.

Histórico

Um pouco de história sobre o tema, lembrando tratar-se apenas de minha visão e somente dela. No FISL de 2007 eu apresentei uma palestra sobre a história do Portal do Software Público, então passe na seção de palestras do blog e baixe o PDF da apresentação ou assista o vídeo para informações sobre o que havia antes de eu chegar. No começo o problema era simples: tratava-se de acessar uma estrutura HTML tosca para baixar o software Cacic e acessar um repositório para controle de versão. Sem entrar nas características técnicas que levaram ao cenário do Portal, desde o começo foi exigido dos usuários que fizessem o cadastro para baixar o software. Na primeira versão, o processo de geração de senha era manual, e era necessária porque o servidor por onde ocorriam os downloads não possuía segurança suficiente para baixar sem um controle de acesso.

Contudo, logo no começo do projeto, aconteceu o que sempre acontece quando alguém tenta trabalhar no governo: veio um questionamento do TCU de por que estávamos dando gratuitamente à sociedade algo que pertencia ao Governo. Por mais que isso possa parecer ridículo pra você, a coisa foi séria como sempre é quando é necessário responder a uma auditoria. A resposta teve que ser muito bem formulada e envolveu algumas das maiores autoridades no assunto modelos de licenciamento livres à época no Brasil, que não vou citar para não cometer injustiças. Se você imagina que o interesse social é o suficiente para responder algo do gênero, sinto ser eu a lhe informar que você está errado; o ponto mais importante da resposta foi provar que a economia no Governo estava sendo enorme porque vários outros órgãos estavam utilizando o Cacic. Foi necessário anexar uma lista de órgãos utilizadores à resposta, que só foi possível obter por causa do cadastro.

O tempo passou, aconteceram coincidências, e o Ministério do Planejamento “ganhou de presente” um contrato para desenvolver um Portal de comunidades para o Cacic. A coisa é complexa e está melhor explicada na seção de publicações aqui do blog, mas resumidamente podemos dizer que o Portal deveria ser instalado do jeito que estava, sem nenhuma alteração, e que o código seria disponibilizado para outros serviços de Governo. A empresa que eu trabalhava foi contratada para implementar o software dotLRN e criar o Portal do Software Público, pois era o serviço que havia sido contratado para outros usuários. Aí vale um esclarecimento: em nenhum momento o doLRN foi escolhido para o Portal: ele simplesmente aconteceu pois estava sendo oferecido gratuitamente para o Ministério. Uma das consequências dessa escolha gerou outro problema técnico: o software dotLRN não permite a visualização pública das informações da comunidade. Hoje já é possível realizar essa alteração, mas na época não era e assim tivemos que trabalhar com o conteúdo interno das comunidades sendo fechado a usuários não cadastrados. Mais uma vez, não foi algo pensado, apenas uma espécie de “coincidência” técnica. E o cadastro, que já era um requisito, se tornou ainda mais necessário.

A aprendizagem

Com o tempo acabamos percebendo algumas coisas que vieram como consequência do cadastro, principalmente no que diz respeito ao mapeamento do comportamento do usuário. Nada tão “comercial” como aquilo que o Google faz ao adicionar o cookie às suas buscas, mas conseguimos estabelecer um canal de comunicações com os cidadãos. Foi assim que identificamos, por exemplo, a necessidade de um software de gestão municipal, o que acabou gerando mais tarde a liberação do software e-cidade no Portal, hoje uma das ferramentas de governo mais importantes no Brasil.

Apesar da clara importância de estabelecer um canal de comunicação do cidadão, a maior riqueza não está nem perto daí, pois o maior beneficiado sempre foi aquele que se cadastra. Não está entendendo? Dê uma olhada aqui e conheça o prêmio Ação Coletiva. Esse prêmio surgiu porque pudemos perceber, com o tempo, que alguns usuários se destacavam mais do que os outros na comunidade, e seria interessante mantê-los ativos e colaborando. Descobrimos isso ao analisar os dados de colaboração dos usuários do Portal, e mapear o que acontecia com ele desde quando baixava o software até responder a primeira pergunta de alguém no fórum da comunidade. Como é interesse do Governo que os cidadãos aprendam e evoluam, surgiu a ideia de dar um prêmio para quem realiza os trabalhos de forma voluntária como um incentivo para que todos continuassem fazendo o que estavam fazendo.

Qual foi o resultado? Até hoje, TODOS os ganhadores do Prêmio Ação Coletiva conseguiram trabalhos relacionados com os softwares para os quais foram premiados, ainda que seu grau de colaboração tenha oscilado com o decorrer do tempo. Há aí outras questões importantes no que diz respeito à capacidade da comunidade de gerar novos colaboradores que não pretendo abordar agora, mas o fato é que eles mesmos se beneficiaram de suas colaborações. Aconteceu no portal o curioso fenômeno de valorização dos usuários, e determinados perfis passaram a valer dinheiro dentro da comunidade. Sim, aquele cara que colabora e todo o mundo conhece transformou sua colaboração em um ativo, e pode passar a viver com isso se quiser? Quer um exemplo? Acesse esse link e esse aqui (restritos a quem está cadastrado no Portal).

O cadastro, mais do que uma ferramenta que facilita a vida do Administrador de Sistemas, acabou se tornando um importante elemento gerador de riqueza. Se ainda não está convencido, vai ter que ler a minha monografia. Assim, como os textos do meu blog, ela também é bem longa. 🙂

Benefícios de ser anônimo?

O que aprendemos com o cadastro do Portal é que a “anonimização relativa” que existe em alguns locais da Internet não traz nenhum benefício ao maior interessado, o produtor da notícia. Aquela ideia de que poder postar um comentário anônimo facilita a colaboração é completamente equivocada, e a única “vantagem” fornecida pela inexistência de login é a proliferação dos trolls e flames. Esse tipo de comentário não agrega valor ao conteúdo e não traz nenhum benefício tanto para quem publica quanto para quem lê a notícia.

Pelo fato do acesso ser restrito, já havíamos percebido isso desde o começo, e de uns dois anos pra cá a maior parte dos serviços de Internet entendeu os problemas causados pelos comentários anônimos. Na última semana, foi a vez do Slashdot adotar a mesma política, e veja suas justificativas:

Nós agradecemos o suporte que temos recebido ao longo dos anos pelos usuários registrados do Slashdot. Eles são ativos nas discussões, e em troca pelo interesse que eles possuem no site, gostaríamos de fornecer alguns benefícios a mais do que o fornecido a nossos amados leitores anônimos. (…) Nós sempre tentamos manter um equilíbrio (entre ambos os usuários), mas é claro que nós gostaríamos que você se registrasse, e acreditamos que temos vários benefícios que valem a pena (como rastrear comentários em respostas, construir “karma” e utilizar o “sistema Zoo” para estar perto de seus amigos e companheiros).

Tradução pessoal do texto original disponível em http://meta.slashdot.org/firehose.pl?op=view&type=story&sid=13/03/31/0116222

Não sei se reparou, mas os argumentos são muito parecidos com os que forneço aqui. O que eles fizeram então? A partir de agora todo o conteúdo do site está criptografado para usuários não registrados. É claro que eles colocaram um botão para retirar a criptografia com medo da resposta dos usuários, mas tenho certeza que hoje, se eles pudessem ter escolhido, teriam restringido a maior parte do conteúdo a usuários registrados.

Há ainda uma questão legal que não pode ser desprezada: no Brasil, o conteúdo dos comentários é responsabilidade do autor do texto. Sim, pode parecer absurdo, você pode discordar, mas é verdade. Até mesmo o Não Salvo, longe de ser considerado uma fonte de conteúdo relevante (pelo menos para mim) já percebeu os problemas que isso pode causar após levar vários processos por conta de comentários dos outros. Veja o que ele coloca agora antes dos comentários:

Aviso do site Não Salvo

Aviso sobre comentários no Não Salvo

O fato é: leitores anônimos não trazem benefício e não agregam valor ao conteúdo produzido.

Conclusões

Alguns argumentarão que parte do conteúdo deveria ser disponibilizada sem login, e estarão certos em sua maioria. Essa é a conta que o Slashdot ainda está tentando fechar: o que deve ser aberto e o que deve ser fechado. Contudo, se tivesse que escolher hoje entre fechar tudo e abrir tudo, optaria facilmente pela primeira opção. O sujeito está recebendo de graça o software e todo o seu código-fonte, então é justo que o desenvolvedor exija pelo menos saber se o trabalho dele está sendo relevante para alguém através do cadastro. Como o Jomar já escreveu e eu também argumentei por lá, Software Livre não nasce em árvores.

Minhas posições são, de maneira resumida as seguintes:

– O acesso ao conhecimento deve ser livre e irrestrito mediante cadastro, é claro;

– Se me chamassem para pensar o próximo Portal do Software Público, partiria do princípio de que o cadastro continuaria sendo necessário, mas flexibilizando algumas partes do conteúdo. A flexibilização excluiria o download do software, é claro.

Se você chegou até aqui, parabéns. É só isso (tudo) o que tinha a dizer. Se quiser questionar ou apresentar outro ponto de vista, fique à vontade para utilizar a caixa de comentários.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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