Mulheres na área de TIC

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No dia 08 de março, coincidentemente hoje, comemora-se em vários locais o Dia Internacional da Mulher, um evento de várias origens históricas relacionadas à briga das mulheres por espaço no Mercado de Trabalho. Digo coincidentemente hoje porque o assunto veio mais à tona do que em outras oportunidades ao me deparar com situações e informações que chamaram a informação sobre o tema de uma maneira que ainda não havia acontecido. Como já exposto em outras oportunidades, trabalho no Mercado de TIC há quase 20 anos, e pela primeira vez pude perceber de maneira clara como somos misóginos e machistas.

A entrada na Universidade

Comecemos com dados: os cursos superiores, que formarão o Mercado de TIC no futuro, são constituídos em sua enorme maioria por homens brancos. Reportagem publicada pelo Nexo explicita de maneira mais clara o problema: os homens são aproximadamente 90% dos estudantes de nível superior em Ciência da Computação. A Figura abaixo apresenta um pequeno recorte dos dados apresentados na reportagem.

Gráfico com o gênero nos 50 principais cursos

Figura 1: Gênero nos 50 principais cursos

 

O problema também é abordado por empresas como Google que, apesar dos esforços, não conseguem passar de 5% de mulheres contratadas trabalhando na área técnica (ou Engenheiros como eles chamam). O problema também é reportado por várias empresas, e se você perguntar vai achar dados parecidos ou piores. Aí vem a pergunta: por que então as mulheres não se interessam por Ciência da Computação? Algumas das causas foram abordadas pelo Professor Silvio Meira em entrevista recente no programa Roda Viva, cujo trecho reproduzo abaixo:

Como podemos ver e concordo, as razões são várias, mas o fato é que as mulheres não estão se sentindo motivadas para se tornarem profissionais de Ciência da Computação. Seria a falta de Mercado de Trabalho? Como abordei em um texto recente, com certeza não é esse o problema. Algumas das razões foram bem apresentadas pelo professor Silvio Meira, mas eu gostaria de ir um pouco mais longe: a culpa é provavelmente nossa, profissionais da área de 35-40 anos, que não criamos um ambiente onde as mulheres se sintam confortáveis, recheado com machismo e misoginia.

Machismo e misoginia

Para explicar o que acontece com o círculo, é preciso elevar um pouco a perspectiva do que é um profissional de tecnologia para o que acontece em todos os círculos onde ele se faz presente, e um bom exemplo é a comunidade de chans/games. Existem vários exemplos por aí,  mas vou deixar essa referência e, principalmente, essa aqui pra que você possa entender o que é o tão falado e cult Nerd. Por uma série de razões que envolvem falta de amor próprio, inabilidade social e comportamento inadequado, alguns homens adultos (muitos homens adultos) não conseguem desenvolver um relacionamento saudável com uma mulher sem enxergá-la como um pedaço de carne a ser consumido. As ofensas vão desde coisas simples, como dúvidas de sua capacidade intelectual com base no gênero, até mesmo situações de assédio moral e sexual que muitos consideram comum.

O buzzfeed fez uma reportagem recente levantando 17 relatos sobre machismo sofridos por mulheres, e vou reproduzir aqui um dos vários depoimentos que me chamou a atenção:

“Enquanto tentava ajudar um dos oito caras que trabalhavam comigo, ouvi ‘não vou dar muita credibilidade para alguém que tem 4 bilhões de neurônios a menos que um homem’. Eu entrava muda e saía calada, dia após dia. Não conseguia dormir, tive crises de ansiedade que literalmente me tiravam o ar. Pedi demissão. Mas em nenhuma empresa em que tenha trabalhado fui devidamente reconhecida.

Sempre fui reduzida a ‘finalmente contratam uma mulher pra organizar as coisas’. Ouvi muito coisas do tipo ‘Você é bonitinha’ ou ‘Nossa, uma mulher estudando Tecnologia da Informação?! Tem certeza que é isso que quer?'”. – Anônima, analista de infraestrutura

A raiz da questão está em você, leitor, que leu alguma dessas frases e não encontrou problema, por pensar que se tratava “de uma brincadeira” ou que a menina “estava exagerando”, mas isso é a definição de machismo: o homem que se acha superior à mulher simplesmente por ser homem. Se você acha que se trata de uma brincadeira inocente, tente reverter a pergunta: o que você faria se alguém te dissesse algo do tipo “só acertou porque é bonitinho”, ou “nossa, homem estudando TIC”. Ao adotar tal postura, você provavelmente está machucando uma mulher, que não vai achar nenhum pouco engraçada a brincadeira.

O mais difícil, contudo, não é exemplificar o machismo, porque com alguma reflexão você vai conseguir entender. Talvez seja mais difícil explicar o que é a misoginia e porque isso é errado. Vou tentar explicar com duas frases que muitas mulheres já ouviram e foram reproduzidas aqui:

 Figura 2

Figura 3

 

No primeiro exemplo vemos um caso clássico muito presente no cenário masculino: homens que só enxergam as mulheres como um pedaço de carne. No segundo estão tentando rotular o que elas devem fazer com base apenas no sexo. São ambos casos de ódio que se aplicam com base no gênero e nada mais. É muito triste.

Existe luz no fim do túnel

Isso tudo quer dizer então que as meninas devem fugir do Mercado de TIC e tentar trabalhar em áreas mais, digamos, receptivas às mulheres? A resposta é um estrondoso NÃO! Como aprendi com as amigas ao longo da vida, lugar de mulher é onde ela quiser. E gostaria que muito mais delas tivessem o desejo de cursar Ciência da Computação, porque sim, precisamos delas, por várias razões que não vou elencar, mas no mínimo precisamos de um ambiente mais diverso para que os produtos de tecnologia deixem de ser pensados por homens para homens. E acreditem meninas: tentar pode valer muito a pena para uma mudança de vida. Nossa profissão pode ser bem legal.

Como homem criado numa sociedade patriarcal machista, não tenho como afirmar que não sou machista também. Percebi graças a amigas queridas que passaram e ainda passam na minha vida que eliminar o machismo é como perseguir um ideal, uma luta diária, que deve estar sob constante vigilância. Um bom primeiro passo é entender o princípio básico do RESPEITO! Campanhas sociais como Não é Não e Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser são importantes para jogar luz ao problema e nos manter sempre vigilantes.

Como boa notícia vejo que pela primeira vez as campanhas de respeito pelas mulheres estão ganhando voz e conseguindo chegar aos homens. Me lembro da primeira vez que presenciei uma situação de assédio sexual de uma companheira de trabalho; poderia ter ficado calado e encarado tudo como uma brincadeira, mas decidi me posicionar. Somente após ter passado por esse conflito e ver o impacto na vida de uma mulher ao se sentir abraçada numa situação de vulnerabilidade, percebi a importância de fazer isso sempre. O futuro passa por nós homens, adultos, em não permitirmos mais brincadeiras de cunho sexual ou piadas sobre a capacidade intelectual das meninas. Que tal aproveitarmos esse dia 8 de Março para uma decisão revolucionária? Que tal tratarmos nossas companheiras de trabalho do sexo feminino como… companheiras de trabalho?

P.S.: Se você é mulher, está enfrentando alguns dos problemas citados e gosta da área, existem algumas iniciativas muito legais para reduzir a barreira de entrada.  Procure o movimento Mulheres na Tecnologia ou o Pyladies para começar. O mais importante é: NÃO DESISTA! Precisamos de você!

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

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