Estamos ajudando a enterrar o Software Livre?

O post atual é 100% inspirado nas conversas que tive durante o #arenaCODE com o amigo Jomar Silva. Comentava com ele como estou tendo a sensação de que o Software Livre deu uma esfriada. Não estou entrando no mérito de quem está migrando ou não, pois como o próprio Jomar escreveu aqui e eu já coloquei minhas ideias aqui, quem está usando não tem mais tanta importância. Temos uma grande base de usuários (que poderia ser maior é verdade) e as brigas de divulgação que tínhamos há alguns anos se tornaram obsoletas. Continuam sendo necessárias, porque Marketing é um trabalho contínuo, mas não têm mais importância vital.

O objetivo aqui é tratar da (sempre pequena) comunidade de desenvolvedores de Software Livre. Não vou citar nomes porque certamente cometeria injustiças, mas me lembro das vezes em que nos encontrávamos por aí discutindo as contribuições que cada um dava em seus grandes projetos de Software Livre. Me lembro de já ter visto uma reportagem no Jornal Nacional quando um de nossos amigos teve um patch aceito no kernel do Linux, e outra quando um deles se tornou líder de Projeto. Os encontros tinham um ar meio hacker meio nerd (acho que não existe hacker que não é nerd) e, acima de tudo, demonstravam como estávamos todos ganhando importância em nossos projetos.

O tempo passou, muita coisa aconteceu, e um dia as conversas simplesmente morreram. Ainda existem contribuições aqui e ali, mas aquele ar hacker foi desaparecendo aos poucos. De repente comecei a me perguntar: o que aconteceu com todo o mundo? Onde estão nossos amigos desenvolvedores?

Para entender um pouco o fenômeno é preciso estudarmos o que acontece em outros lugares do mundo com os desenvolvedores  dos principais projetos. Tive a honra de conhecer alguns deles, porque como o Jomar disse também, você só consegue sentar na mesma mesa com esses caras se tiver algum mérito, normalmente conquistado à base de muito código escrito. Quase todos os que eu conheço trabalham em empresas de variados tamanhos, mas têm uma característica em comum: são pagos unicamente para desenvolver o software. Não têm que atender clientes, não têm que prestar serviço e só precisam continuar desenvolvendo.

O fato é que fora do Brasil existe uma percepção de que é necessário continuar investindo nos grandes projetos para que eles continuem evoluindo. Durante anos a Sun manteve uma grande equipe de desenvolvedores do OpenOffice, pagos unicamente para desenvolver o produto. Em teoria a empresa não ganhava nada com aquilo, então por que manter uma equipe de desenvolvimento?

Responder a essa pergunta é o cerne da questão inicial, ou o que nós não estamos fazendo pelo Software Livre. Temos uma grande base de usuários no Brasil como eu já disse, mas a relação entre o número de usuários e o número de desenvolvedores talvez seja a mais desigual do mundo. Não significa que não tenhamos talento, pelo contrário, mas a percepção do livre = grátis ainda atrapalha bastante. Aqui Software Livre é quase sinônimo de Linux, mas passe aqui e dê uma olhada na lista de membros da Linux Foundation, responsável por manter o sistema. Se quiser, consulte aqui a lista de principais contribuidores individuais.

Em quase todos os grandes Projetos que utilizamos por aqui encontramos alguns desenvolvedores brasileiros. Contudo, não somos capazes de mantê-los trabalhando pelo software diretamente. Se ele vai para uma empresa, passa a ser um Prestador de Serviço e tem que atender outras demandas que não exatamente o desenvolvimento da tecnologia. Há também o caso em que a necessidade o empurra para outros trabalhos, e o tempo para desenvolvimento voluntário praticamente acaba.

Um dos principais responsáveis por esse “esfriamento” da comunidade foi, sem sombra de dúvidas, o Governo. Os números variam, mas no Mercado de Informática do Brasil o Governo é algo em torno de 50-60% (se alguém conhecer uma fonte para esse dado coloque nos comentários), ou seja, é o mais importante disparado. Passamos do tempo em que era tudo terceirizado em informática para o tempo em que o Governo precisa dominar tudo. Não se trata do fato de dominar a tecnologia, mas estamos falando de que todo o desenvolvimento e manutenção dos softwares deve ser feito internamente. Qual é a solução para um gestor público que precisa customizar um Software Livre de grande importância? Contrata a pessoa que mais entende dele para trabalhar no Governo.

Os motivos pelos quais isso acontece são vários e estão diretamente relacionados à falta de uma carreira específica de informática. Pretendo tratar do assunto em um outro post por aqui, mas o fato é que ao invés de contratar empresas que trabalham com Software Livre, o Governo está contratando pessoas. O mais grave é que quase todos os que vão trabalhar no Governo acabam deixando de fazer o que era mais importante: desenvolver o software.

O último caso e ainda mais grave é o do software básico. É muito fácil entender porque alguém precisaria no Governo de uma pessoa que entenda de Zope/Plone, por exemplo, mas e Sistemas Operacionais? Por que um gestor contrataria um desenvolvedor de Sistemas Operacionais? Vale lembrar que administrador de sistemas, por melhor que seja, não é desenvolvedor de Sistema Operacional. Existem alguns que trabalham no governo e eu conheço pessoalmente, mas em comparação com a base de usuários que temos o número é simplesmente ridículo. Precisamos lembrar que Software Livre não nasce em árvores, e alguém precisa investir para que o software continue existindo. Afinal, quem vai pagar pelo desenvolvimento do OpenOffice se ele é gratuito?

Quando tomamos uma postura contrária à monetização do ecossistema do Software Livre estamos ajudando a enterrá-lo. De fato, o modelo de subscrição pode ser mais caro que o de licenças em alguns casos, mas já escrevi aqui e faço questão de repetir: em alguns casos o Software Livre pode ser mais caro do que o proprietário. Não estou dizendo que é a regra, mas pode acontecer. E qual é o problema? Você usa Software Livre somente porque é grátis ou porque se importa com a liberdade? Se você se preocupa somente com o fato de ser grátis, sinto muito mas você está ajudando a enterrar o ecossistema. Depois que o software morre não adianta ficar de mimimi. Vivemos em um mundo capitalista (felizmente ou infelizmente) e as pessoas precisam pagar suas contas. Ninguém vai trabalhar de graça.

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Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

There are 4 comments. Add yours

  1. 1st dezembro 2011 | Augusto says:
    Eduardo, gostei de suas poderações. Creio que o software livre, para sustentar-se, deve criar ou vincular-se a um modelo de negócio que torne o desenvolvimento sustentável e atrativo para profissionais de TI e empresas/usuários. Creio que a falta de uma visão de negócio para o software livre pode trazer a estagnação e desistímulo para o desenvolvimento de novos produtos. Creio quei os envolvidos com o software livre devam aplicar esforços neste sentido. O que você acha ?
  2. 1st dezembro 2011 | Eduardo Santos says:
    Olá Augusto, Obrigado pelo visita. O ponto que você tocou é exatamente o objetivo da mensagem: o modelo de negócios já existe, mas não estamos conseguindo entender. O governo precisa contratar empresas, de preferência de médio e pequeno porte, para desenvolver os softwares. Para os grandes casos de software básico ou com pouco apelo comercial, existem por exemplo os modelos de subscrição, que não são o ideal mas já ajudam bastante os desenvolvedores. Em relação aos "envolvidos com o software livre", como me considero parte deles, já perdemos a conta da quantidade de vezes que tentamos explicar que o modelo precisa se alimentar. Confesso que estamos ficando um pouco cansados de repetir as mesmas coisas para quem não quer ouvir. A maior parte de nós vai simplesmente mudar de rumo e deixar de trabalhar com isso. É a triste realidade...
  3. 1st dezembro 2011 | Augusto says:
    olá Eduardo, entendo que o modelo está formado. Já discutia com o Corinto à época que deveríamos focar na solução e não no software, daí veio a ideia das comunidades, prestadores de serviço e mercado público. As soluções incluídas no Portal do Software Público vieram dos parceiros e atingiram o sucesso que são hoje, validando, a meu ver, a eficiência do modelo. Por uma necessidade do momento, a perspectiva adotada foi a bottom-up (a partir da solução disponibilizada) e não a top-down (a partir de estudo das necessidades de mercado ). Passado o primeiro momento (validação do modelo), entendo que a partir de agora as soluções, de modo geral, devem adotar a perspectiva top-down. Na minha opinião, o modelo top down parte do estudo da necessidade do mercado e não da ferramenta. A partir de reflexões como: o que o mercado (público e privado) necessita em termos de solução ? Quais os clientes/usuários destas soluções ? A partir destas e outras reflexões as soluções seriam criadas/adaptadas e disponibilizadas para o mercado. Esta visão de negócio que acho que seria interessante que os envolvidos com o software livre discutissem e desenvolvessem. Talvez o problema não seja que as pessoas não queiram ouvir, mas não estão ouvindo no idioma que entendam e por isto não percebam que podem ganhar.
  4. 1st dezembro 2011 | Eduardo Santos says:
    Grande Augusto, Seu comentário é muito pertinente, e não toquei no Software Público de propósito: deve sair um post sobre o Mercado Público em breve. O Portal do Software Público é a exceção, pois o Mercado se movimenta ao redor dos softwares do Portal. Talvez seja o único caso de real sucesso onde o modelo "empurra" o Mercado, ainda que eles não queiram. É um caso da mão do Estado agindo para o bem. Contudo, ainda voltamos ao problema do software básico, que sofre do mesmo problema de retro-alimentação no Portal. Mas as perspectivas são boas, uma vez que o Mercado se sente "obrigado" a contratar o software do Portal. Enfim, o post vale para tudo menos para quase todos os softwares do Portal SPB.

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