Poder para o Povo Preto

Poder para o Povo Preto

Reativando o blog que andava um pouco parado, o post de hoje não foi escrito; simplesmente veio até mim. Estou falando do goleiro de futebol do Santos, o (agora ídolo) Aranha.

Antes de começar falando dele, vou gastar um parágrafo falando de mim. Sou nascido, crescido e criado em Brasília: pai do Piauí, mãe de Minas Gerais. Uma mistura bastante comum na Capital Federal. Até a metade da terceira série, estudei numa extinta escola particular chamada Compacto, que foi adquirida por uma franquia maior e mudou de nome. Desde então, estudei somente em escola pública. Já falei sobre isso aqui se quiser relembrar o passado. Quando passei na UnB em Engenharia Elétrica, Universidade Federal de renome no curso, oriundos de escola pública éramos somente eu e mais três. Hoje entendo o porquê, e por aí vamos começar.

Não vou começar com hipocrisia e confesso que não sei se já sofri um preconceito direto como o de Aranha. Ninguém nunca me chamou de preto, até porque meus amigos mais próximos não me acham tão escuro assim. Aí você deve estar se perguntando: o que esse cara está falando de racismo então?

Meu pai, nascido e crescido em Parnaíba – PI, sempre gostou de contar a história de como era necessário às vezes pegar balsa para ir à escola onde ele cresceu. Se chovia muito o barraco inundava e ele tinha que ir nadando. Num dia desses de conversa entre pai e filho, ele me confessou que tinha somente um sonho: garantir que seus filhos nunca passariam por aquilo. Se esforçaria tudo o que fosse necessário para nos fornecer educação de qualidade e condições para cursarmos uma faculdade quando nos tornássemos adultos.

Por que ele desejava isso? Porque meu avô, pescador de profissão, talvez achasse que bastaria apenas estudo para que seu filho fosse igual ao dos ricos que ele conhecia perto da praia. Ou talvez porque minha bisavó, filha de donos de engenho casada com um escravo fugido, sempre achasse que a educação era a barreira cultural mais importante que os negros precisavam vencer para serem iguais aos brancos. Até o dia em que fui à casa de um colega de curso na Engenharia. Seus pais, engenheiros, brincavam sobre a dificuldade das provas e testes em sua época. Ou como sobre as provas eram diferentes se um ou outro professor as aplicassem. Foi aí que entendi a diferença.

Se seus pais fizeram parte de uma família que tinha estrutura para fornecer educação de qualidade à eles, posso afirmar quase com certeza que os pais deles (seus avós) provavelmente não eram negros. O fim da escravidão no Brasil (vale lembrar, último país DO MUNDO a acabar com a escravidão) foi, oficialmente, em 1888, data de assinatura da Lei Áurea. O objetivo não é dar aula de história por aqui, mas vou citar um trecho do excelente livro do Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia:

O estudo da história do negro no Brasil mostra que com a Abolição e com a instituição da República a luta dos negros pelos direitos civis apenas começava.
Os negros após a abolição se viram na seguinte situação:
  • Sem trabalho, pois cada um era treinado para uma tarefa que não poderia mais executar da mesma forma;
  • Sem educação, pois isso não era direito do negro;
  • Sem dinheiro, pois nunca receberam pelo seu trabalho.

A partir daí é história, que gera dados como esse sobre o desemprego em Brasília e o outro que citei no começo do texto: só eu e mais três oriundos de escola pública.

O que mais me incomoda nas discussões sobre o racismo é o argumento do tipo: “ah, também quero cotas para gordos”, ou “ah, as loiras deveriam ter uma cota”. Normalmente o argumento é apresentado pelo mesmo tipo de pessoa que olha pra mim e diz que não sou negro. Não me lembro de ter visto um gordo preso num navio negreiro para ser vendido como escravo só porque era gordo, ou uma loira que nasce sem direito nenhum só por ser loira. O racismo não é sobre o bronzeado das pessoas: é sobre a exclusão da maior parte da população do Brasil, que não consegue competir em condições de igualdade com seus “irmãos” brancos. Escolha um indicador, qualquer um: saúde, educação, segurança, renda, e posso garantir que os piores números estão entre os negros.

Aí mora também o maior problema do racismo no Brasil: ele não existe. Se você cita um caso de racismo ou acusa uma pessoa de comportar-se assim, o primeiro argumento é sempre o mesmo: “ah, mas eu tenho muitos amigos negros”. Racismo não é sobre os negros que conseguem (como eu) ser amigos de pessoas brancas em classes sociais mais elevadas, mas sobre os negros de pele mais clara que vivem nas favelas dos rincões do país em condições de miséria. Por causa da alta miscigenação genética da sociedade brasileira, todos podem ser chamados de negros ou brancos. Assim, reduzir o problema a uma questão de cor é ignorar a complexidade da população brasileira.

Claro, não podemos nos esquecer que também é uma questão de cor. Quando o goleiro Aranha é xingado de macaco, não é porque ele é pobre, mas sim porque ele é negro. A melhor análise que encontrei foi essa aqui. Dê uma lida em um trecho:

 Aranha contou ontem para os repórteres e produtores que queriam a reconciliação hoje em rede nacional. Ele morava em Campinas e estava com amigos negros e um nordestino dentro de um carro. Estavam levando uma criança branca para um hospital. Foram vistos por uma pessoa dentro de um ônibus. Ela não se conformou com a cena e fez uma denúncia anônima à polícia. Passando as placas do carro. A certeza do denunciante, os negros estavam sequestrando a criança. A PM deteve o grupo.

Concordo com o texto: Aranha fez muito mais pelos negros que a maior parte das figuras públicas negras de nosso país. Talvez ele venha a se tornar o nosso Martin Luther King e consiga provar que o racismo existe. Ao agir com dignidade e fugir da “política de negação do racismo”, ele expôs o problema de forma latente e obrigou muita gente a se posicionar. Algumas máscaras caíram; outras sequer estavam lá. Mas ele talvez tenha sido o responsável por dar o pontapé em uma transformação social que nos obrigue a tratar o racismo com seriedade.

Para finalizar, recomendo essa reportagem do Trivela e fecho com o Ecimicida. Ele sabe muito mais disso do que eu.

0saves


Se você gostou desse post, deixe um comentário ou inscreva-se no feed RSS para ter todas os posts enviados para o seu agregador preferido.

Author Description

Eduardo Santos

Mestre em Computação Aplicada pela Universidade de Brasília (UnB), Tecnologista na Agência Espacial Brasileira, professor do Uniceub e cientista de dados (data scientist).

No comments yet.

Deixe uma resposta

Twitter

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 504 outros assinantes

Alguns direitos reservados

Licença Creative Commons
Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.